Entrevista a Pepe Cáccamo, autor da lâmina artística comissionada polo Espaço Clara Corbelhe para o curso 2025-2026.

Conta-nos sobre ti. Quem é Pepe Cáccamo?

Eu sou neste momento um professor reformado do Ensino Médio, âmbito no qual fum docente durante trinta e sete anos como professor de Língua Castelhana e Literatura. São agora um cidadão preocupado polo avanço das ideias e práticas fascistas no mundo, indignado até a ira diante do genocídio executado por Israel contra o povo palestiniano, horrorizado pola ameaça de uma terceira guerra mundial. Uma banda mafiosa de governantes ególatras e descerebrados ao serviço do sistema capitalista, presididos polo psicopata Donald Trump, dirige-nos para esse rumo de aniquilação à vontade das multidões reacionárias, seduzidas pola imbecilidade dos líderes medíocres, ressentidos, soberbamente ignorantes da direita e a ultradireita. Não imos muito longe. Com dous nomes próximos avonda para identificar esse modelo humano e político. Alberto Núñez Feijoó e Santiago Abascal. Além das circunstâncias que decidem a minha posição emocional e ideológica na hora de hoje, alicerçada em certezas de sempre, eu são poeta desde a adolescência. Exerço também a crítica literária, escrevo ficção narrativa, literatura para crianças e ensaio biográfico. Desde finais dos anos 80 dedico-me à arte objetual e à poesia visual.

Como recebeste a proposta da Clara Corbelhe para fazeres este encargo? O que achas da proposta de lançar uma coleção de lâminas artísticas deste espaço de produção e pensamento crítico?

Acolhim com prazer a proposta do Espaço Clara Corbelhe, que propiciou não só a minha descoberta de um território histórico –o ecossistema das caseteiras– e de pensamento crítico que desconhecia –o do vosso coletivo– mas também o desafio pessoal da expressão artística condicionada por um assunto temático de perfil concreto. A realização de obras literárias ou de arte “por encomenda” representa uma quebra na direção habitual do trabalho criativo. Este tipo de incitações costuma produzir inicialmente um certo estado de desacougo. Assumido o compromisso comprovamos, porém, que o perímetro acoutado da proposta atua como módulo de segurança e abre atrativas rotas de investigação. Neste caso, para além, o diálogo da arte com o pensamento crítico justifica com razões de causa maior o esforço criativo.

Tinhas conhecimento das “caseteiras”? Resultou-che atrativo o seu imaginário?

Um inicial achegamento informativo ao mundo das caseteiras, cuja existência desconhecia antes do meu primeiro contacto com o Espaço Clara Corbelhe, provocou-me um efeito de ambígua surpresa, a do contraste entre a violência repressiva produzida polo domínio patriarcal e a resistência ativa daquelas mulheres organizadas em tribo independente e rebelde. Determinados sectores da sociedade civil auto-organizada como o das caseteiras acenderam ao longo da história e seguem hoje pondo em marcha o motor da resposta livre e do confronto valente, tantas vezes heroico, ao Poder. Na ação desses grupos humanos de vanguarda, que às vezes congregam a multidão na linha do progresso –Liberdade, Igualdade, Fraternidade–, assenta no dia de hoje a esperança de uma revolta universal contra o fascismo imperialista e genocida que nos indigna e nos abafa. As caseteiras, a quem quigera conhecer mais a fundo, estão conosco nesse sonho de liberdade e justiça. A sua brava escolha vital moveu a minha olhada e a minha mão na elaboração de uma série de poemas visuais ilustrados, dos quais escolhestes o que acompanha a vossa revista no próximo número, um breve aceno expressivo de colaboração nesse teimoso empenho nosso na revolta.

Pepe Cáccamo
Pepe Cáccamo

Como foi o processo de criação? Tiveste que procurar informação ao respeito para o processo de criação da obra? O que achas pessoalmente mais interessante deste processo artístico?

Uma das minhas facetas artísticas, fora da criação objetual, é a de uma concreta linha da poesia visual, a procedente da tradição do letrismo. Trata-se, na minha escolha pessoal, da escrita de textos elaborados a partir de um grafismo híbrido, só parcialmente legível, em que utilizo signos modificados a partir de outros de aparência reconhecível. Elaboro assim páginas heterográficas cujos textos não transmitem significados léxicos identificáveis, mas uma imagem autónoma. As letras agrupadas atingem um sentido visual autossuficiente que não prescinde, porém, da referência à ideia de página escrita. Com frequência acrescento ilustrações, maiormente de carácter abstrato. Para o trabalho que me solicitastes escolhim, porém, um tratamento figurativo que servisse para transmitir de jeito mais doado os conteúdos fundamentais desse feito histórico no que assenta, se não me confundo, a raiz mesma do Espaço Clara Corbelhe: as caseteiras. A partir da informação essencial sobre esse coletivo humano e da incitação emocional que dela derivou, realizei uma série de páginas –poesia visual ilustrada pode ser um título genérico apropriado– em que incorporei imagens de corpos e rostos femininos e de construções essenciais que pudessem recolher a ideia de “caseta” ou edificação precária e humilde. Foram amostras variadas a partir de um mesmo núcleo criativo que vos entreguei para que escolhêssedes a que mais vos interessasse. No processo de elaboração deste conjunto –uma breve enciclopédia monográfica– sentim-me especialmente aguilhoado na procura das soluções figurativas e do diálogo entre texto e ilustração.

Qual é teu objetivo com a obra? O que procuras transmitir com ela quando as associadas ao projeto as recebam nas suas casas?

Pretendim transmitir o mesmo efeito de surpresa –e tal vez de verdadeira confusão– que a mim me produziu aquele contraste entre violência patriarcal e resistência ativa, agressão e rebeldia, poder e independência. Não sei se a minha proposta visual consegue o objetivo pretendido.

Quais foram as tuas influências ou referências para a sua elaboração? O que achas que sobressai nesta obra

Resulta sempre muito difícil identificar o substrato formativo e o pouso intertextual do trabalho artístico. Sei que a minha poesia visual assenta, como dixem, na tradição do letrismo. Gil Wolman ou Ana Haterly constituem para mim referentes fundamentais. E sei também que nos alicerces do meu discurso artístico –tanto na criação de objetos, livros intervindos, poemas objetuais como na de livros de artista e poesia visual– atua a atracção inevitável de certas linhas da arte contemporânea desde as vanguardas: o dadaísmo e o surrealismo, a abstração gestual, a arte povera ou a pintura matérica. Não saberia identificar, contudo, as chaves referenciais dos desenhos figurativos da lâmina escolhida. Suponho que os meus olhos se alimentam, não sei com que nível de resultados, da visualidade da banda desenhada e das ilustrações dos livros para crianças. Também não estou capacitado –naturalmente– para valorar os elementos sobressalientes da minha obra.

Quais são os teus próximos projetos? Onde poderemos encontrar o teu trabalho?

Trabalho atualmente em várias linhas de elaboração de objetos, livros intervindos e páginas de poesia visual letrista e não tenho um projeto expositivo próximo. Podem-se ver imagens da minha obra em marcha em Instagram, Pepe Cáccamo, e vídeos em internet com estes títulos:

  • Pepe Cáccamo/boek visual
  • Pepe Cáccamo Material Metáfora
  • Pepe Cáccamo. A experiencia obxectual
  • Ponencia de Pepe Cáccamo. Centro de Poesia Visual de Peñarroya

O que pensas da arte como forma de intervenção social e política? Qual achas que é a sua saúde atualmente nos movimentos sociais, nomeadamente, na Galiza?

A criação artística independente é por princípio uma forma de intervenção social –nalguns casos mesmo política– que fortalece hoje o seu valor simbólico frente ao domínio do pensamento acrítico, do gregarismo reacionário e da ignorância dirigida. Determinadas intervenções e amostras artísticas, na Galiza e no mundo, respostam de modo ativo a vontade de controlo ideológico do poder. São os movimentos de base as plataformas melhor situadas diante do domínio do discurso institucional. A luta é dura. Méndez Ferrín declara e pergunta: resistimos, que pasa? A resistência positiva, alternativa, underground –mais uma vez– de uma importante quantidade de coletivos e de pessoas singulares que atuam na Galiza desde a criação (Arte, Literatura, Teatro, Música, Pensamento) é um instrumento de entusiasmo e rebeldia que deve crescer e multiplicar-se. Assumamos com orgulho a nossa condição de caseteiras.

NOTA BIOGRÁFICA. PEPE CÁCCAMO

Xosé María Álvarez Cáccamo, poeta e crítico literário, nasceu em Vigo no ano 1950. Dedica-se também à escrita narrativa e teatral e à literatura infantil. É autor de poemas-objeto e visuais.

POESIA

É autor dos seguintes livros de poemas : Praia das furnas (1983), Arquitecturas de cinza (1985), Os documentos da sombra (1986), Luminoso lugar de abatimento (1987), Cimo das idades tristes (1988), Fragmentos de mar (1989), O lume branco (1991), Colección de espellos (1994),  A escrita das aves de marzo (1997), Calendario perpetuo (1997), Os cadernos da ira  (1999), Vocabulario das orixes  (2000), Depósito natural (2002), Vilar dos fillos (2004), Vento de sal (2008), Cántico dos topónimos esdrúxulos (2010), A boca da galerna (2011), Tempo de cristal e sombras (2014) e A liña da vida (2023). Em Ancoradoiro. Obra poética (1983-2003), editado em 2003, recolhe-se a sua poesia publicada até o momento.

OBRA OBJETUAL E VISUAL

A sua obra objetual e visual foi exposta nas galerias e centros de arte Ad Hoc (Vigo), Citania (Santiago), Sargadelos (A Corunha), Sala Província (León), Fundação Luis Seoane (A Corunha), Consultorio (Aveiro), MUSAC (León), Cubo (Vigo), Ele Matadero (Madrid), entre outros espaços.

COM BALDO RAMOS

Cara Inversa (2014, Santiago de Compostela: Follas Novas) é o resultado do diálogo intergenérico (poesia discursiva e livros-objeto) com o poeta e artista plástico Baldo Ramos e foi exibida em várias salas e galerias ao longo dos anos 2014 e 2015. Em librosconversos (2016, Santiago de Compostela: LibroGalegos.gal) editam-se os poemas de um amplo conjunto de poetas galegos cujos versos foram incorporados aos livros-objeto de Ramos e Cáccamo expostos no Museu do Povo em 2016, cujas imagens se reproduzem também no mesmo volume. Criptografías (2022, Santiago de Compostela: Alvarellos) recolhe a obra visual letrista de ambos os autores exposta em 2024 na sala Metro de Santiago e em AF de Vigo.