Uma casa ao final do Caminho: o sincretismo como via para imaginar outros futuros para a cultura galega

Mourae (Lois Búa)
15/05/2026

Mourae (Lois Búa)

Lois Búa, sob o nome artístico “Mourae”, reivindica neste artigo o sincretismo, a contaminação cultural e as ruínas contemporâneas como motores para imaginar novas formas de galeguidade. Entre o folk horror, a memória popular e a cultura digital, Mourae defende uma tradição viva, indomável e aberta à reinvenção.

Quando pensamos em lendas e mitologias galegas, as histórias de mouras e da mourindade aparecem disseminadas por toda a geografia galega e portuguesa. Esta feminidade mitológica descrita por Rafael Quintía Pereira no seu livro Análise Estrutural e Simbólica do mito da Moura (2015) tem qualidades mixtas. Esta figura antropófaga, vencelhada à água e às labores de cuidado, é também entidade civilizatória e construtora de megalitos. Como o meu nome artístico Mourae indica, a moura converteu-se para mim num referente de género que não existia na minha realidade (ou que não aparecia à simples vista). E é que a mitologia e o folclore são lugares onde a gente dissidente se encontra a si mesma e se reconstrói; mas como todo relato, estas narrações orais não são neutras. Neste artigo vamos dar juntes um passeio pelos claro-escuros deste nosso fogar que é a cultura oral galega.

O folclore galego, para muita gente dissidente, conformou-se nos últimos tempos como uma casa onde encontrar-nos – tal e como indica o título do livro Rural, tradición, un fogar en igualdade, publicado pela Deputação da Corunha (2023) e as pessoas que nele participaram. Um refúgio onde atopar algo a que agarrar-nos neste contexto contemporâneo hiper-mediatizado onde cada pessoa precisa de umas etiquetas fixas com as que construir a sua identidade e ser inteligível para si próprie e para ês demais. Projetos culturais como os de Mondra, O Rabelo, Meiga-i ou o meu próprio nascem dentro deste paradigma da cultura popular e tradicional da Galiza como espaço confortável e de auto-encontro. E é importante a existência deste tipo de produções LGBTIQ+ num marco temporal onde o auge dos discursos reacionários, o auto-ódio e o sexílio são a norma e onde precisamos volver construir uma autoestima social própria, sobretudo no ponto onde cruzam as dissidências sexuais e de género e a galeguidade.

Mas reparando nesta imagem da tradição oral e da cultura folclórica galega como casa, aparecem refletidos os próprios problemas do cuidado e do fogar. Lembro-me agora de Anna Tsing no seu Vivir en las ruinas, quem comenta que “[l]a dominación, la domesticación y el amor están profundamente entrelazados. Es en el hogar donde las dependencias internas a la especie y entre especies se vuelven más asfixiantes”. É o tempo de começar a refletir sobre que tipo de problemáticas aparecem quando nos relacionamos com a nossa cultura e como pensamos os seus usos renovados, assim como entender que os restos que nos chegaram nunca foram puros.

Uma espada de duplo gume

Muito do que conhecemos como cultura tradicional galega é fruto das representações da galeguidade construídas desde dentro do país mas também desde fora. Um monocultivo que, como nos diz Beatriz Busto Miramontes em Um país «a la gallega» (2021), promove e representa “a Galiza (…) como um portal do tempo, através do qual se podia viajar ao passado da civilização, resgatando-se dela toda bondade e a inocência dos povos primitivos”. Este tipo de narrativa aparece quando falamos da ancestral criação das cantigas ou de quando falamos do ritmo lento do mundo agrário conectando e reproduzindo (muitas vezes sem sermos conscientes) políticas culturais herdeiras do franquismo e da Falange e redefinidas por Fraga.

Quando criamos ou consumimos produtos culturais desde o folclore, temos que dar conta de que as heranças que sustemos não venhem de um passado idealizado e saber que estamos inscritas num contexto que poderíamos denominar caminhocéntrico, seguindo as análises de Cristina Martínez Tejero (2025). No seu artigo “Politics and Culture in Contemporary Galiza”, aborda como o Xacobeo é uma política neoliberal onde se mistura um sentimentalismo identitário e, ao mesmo tempo, se evoca uma perspetiva exótica do próprio.

Neste processo de domesticação folclórica em que estamos imerses, caímos na estandardização e na criação de monocultivos, ainda que em ocasiões se estetizem como microcosmos. Formas únicas de entender as tradições do país. Com isto, volto a Tsing quando fala da ciência das plantações: “Sin embargo, la estandarización hace a las plantas vulnerables a toda clase de enfermedades”. Neste caso, nós, como criadoris, produtoris, consumidoris ou programadoris, pelo nosso ímpeto de conservar o que somos, volvemos vulnerável a nossa cultura-planta encorsetando-a nas ruínas musealizadas e nas fetichizações das variações dialetais e topográficas. Exemplo disto é, do meu ponto de vista,  a reprodução maneirista das técnicas vocais e nasalidades filhas dos deteriorados aparelhos fonadores das poucas pessoas maiores que tiveram a possibilidade de ser registradas para a posteridade. Como cantavam estas vozes quando eram jovens? E, no caso de que esta nasalidade amplifique o alcance da voz, faz sentido repetir esta ferramenta na música mediada pela microfonia? Estas formas acríticas exotizam as metodologias que construíram o nosso património imaterial e mercantilizam saberes mumificando-os em prol da nossa suposta ancestralidade.

Ademais, quando estas “renovações de raiz” se situam no centro das programações culturais, deixam-se fora produções heterodoxas que, sendo galegas, populares e novas, não entram na própria norma identitária do folclore galego. Deste jeito, entramos no jogo da marca turística da qual fala Helena Miguélez Carballeira em Galiza, um povo sentimental? Género, cultura e política no imaginário nacional galego (2014): “Uma lógica auto-colonizadora peculiar subjaz a esta exposição de valores emocionais comuns aos turistas (efectivos ou potenciais) e aos próprios galegos, aos quais se lhe supõe a identificação com um imaginário social prescrito a propósito da sua identidade colectiva cujas origens históricas ficam sem explicitar”. 

Em resumo, a casa de que fazemos parte é uma espada de duplo gume partícipe num processo que, por uma banda, nos promociona como cultura com traços próprios mas que, de outra banda, nos encerra no processo turistificador que nos converte em seres facilmente descartáveis.

Viver com a leira feita uma porcalhada

Neste dilema é quando volvo olhar para a moura e de novo se transforma em espelho. O seu nome já aponta certas heranças muçulmanas da Galiza e sublinha que o nosso país nunca esteve desligado dos fluxos populacionais que se passam na História. Também devemos pensar em que nos encontramos dentro do norte global e que somos cúmplices da colonização do sul. Compreender as relações coloniais e a mestiçagem abre caminhos para imaginar novas formas de pensar-nos na contemporaneidade e de responsabilizar-nos das complexidades de que fazemos parte. Entendendo a nossa cultura como sincrética, abrimo-nos a explorar realidades além da conservação e do protecionismo para começar uma agência viva da tradição.

As referências cruzadas não devem ser tampouco esquecidas desde a própria criação cultural galega se pretendemos não ficar estancades. Do mesmo jeito que incorporamos nas nossas metodologias populares as músicas transatlânticas de ida e volta como a rumba, a nossa geração está inscrita num contexto onde internet, os videojogos e o anime que se passava pela TVG no Xabarín construíram as nossas subjetividades. Sempre estivemos contaminades. É urgente que abracemos as complexidades sociais e as mediações contemporâneas pois, tal e como nos indicam Serxia Laxe e Leticia Couto no seu texto “Corsi e ricorsi: retornar a galeguidade”, tanto a Galiza como a galeguidade são processos em constante criação e porosos. Com a olhada no passado e nas nossas ruínas poderemos construir juntes novos modos de imaginar o futuro, pois isso é o que fazem as comunidades vivas.

O que sucederia socialmente se abraçássemos as representações culturais negativas do folk horror como As Bestas (Sorogoyen, 2022) ou Dagon. La secta del Mar (Gordon, 2001) como próprias? Que tipos de genealogias aparecem desde as representações retranqueiras de La Matanza Caníbal de los Garrulos Lisérgicos (Blanco e Llovo, 1993) ou Toxic Percebe (Fiallega e Jácome, 2004) como novas casas desde que imaginar a Galiza? Somos fruto das ruínas e dos colapsos que nos antecederam e continuaremos, como o mofo, a perturbar e alimentar-nos deste composto de tradições. A única maneira de não ser domesticades e de que os processos históricos de que formamos parte continuem a expandir-se é não termos medo a reinventar a casa e como nos organizamos nela. Assim poderemos pensar juntes futuros além dos que somente são capaces de acoplar-se à realidade normativa que lhes vem dada.

A maneira em que eu conheci a moura foi por acaso, fragmentada. Rafael Quintía (2015) teoriza que esta figura forma parte de restos religiosos pré-cristãos. Se quisermos, podemos abrir-nos a revisitá-los e entender que, se estes restos culturais superaram a cristianização da Galiza e as ditaduras, podemos imaginar que muitas das ruínas com que nos relacionamos também nos sobrevivirão. Além do romantismo e do hiperenxebrismo, temos que assimilar que jamais seremos autêntiques. Rematando com Federico Campagna (2024), não deveríamos ter medo a contaminar o nosso património cultural pois “la única posibilidad de transmitir su historia a un oído vivo es ser malinterpretada, malentendida, desmontada, saqueada y recompuesta”. Sejamos ambicioses e deixemos que a nossa cultura seja pervertida, distorsionada, viva e indomável.