Neste artigo, o geógrafo Brais Estévez toma o filme Do the Right Thing, de Spike Lee, como fio condutor para refletir sobre as limitações da rede de refúgios climáticos desenhada polo Ministerio para la Transición Ecológica. Perante estas, o autor salienta a necessidade de enfrentar o calor extremo através de soluções que respondam as necessidades coletivas e culturais das comunidades.
No filme Do the Right Thing (Spike Lee, 1989), uma onda de calor sufocante toma conta do bairro nova-iorquino de Bedford-Stuyvesant submetendo os corpos e as mentes dos seus moradores à pressão incomum do calor extremo. À medida que a temperatura se aproxima do seu pico, a sociabilidade transforma-se numa bomba-relógio: corpos suados e irritados, sujeitos crispados e suscetíveis ao menor atrito, encontros que derivam em confrontos de maneira quase incompreensível e o trabalho precário convertido numa tarefa insuportável.
Contudo, o ponto de inflexão acontece na Sal’s Famous Pizzeria, um pequeno negócio familiar administrado pelo clã ítalo-americano formado por Sal e os seus dois filhos, Vito e Pino, onde Mookie —interpretado por Spike Lee— trabalha como entregador. Além de ocupar um lugar central na vida cotidiana do bairro, a pizzaria constitui um espaço de convivência racial —ordinário e ambíguo— que ressoa com a noção de “difficult site of racial entanglement” proposta por Katherine McKittrick (2011) para pensar o “sentido negro de lugar” nas geografias afrodiaspóricas. Isto é, um lugar onde o conflito racial não elimina a possibilidade do encontro mas produz formas de inter-relação intrincadas.
No contexto da onda de calor, duas linhas de tensão vão-se acumulando na Pizzeria. A primeira começa quando Buggin’ Out —cliente habitual do estabelecimento— interpela Sal pela ausência de figuras negras na parede da fama do local. Expulso após a discussão, tenta organizar um boicote, mas a iniciativa mal é levada a sério pela comunidade. A segunda envolve Radio Raheem —personagem emblemático e inseparável do seu boombox—, conhecido por reproduzir incessantemente Fight the Power (Public Enemy, 1989) pelas ruas do bairro. Numa visita à pizzaria, Sal exige-lhe que desligue a música. Quando o confronto parece inevitável, Radio Raheem recua surpreendentemente. Mas, embora o desacordo parecesse contido, o calor já corroera as condições sensíveis que sustentavam os frágeis pactos de convivência racial.
À noite, quando Mookie, Vito e Pino julgavam a jornada terminada, Sal aceita servir uma última pizza a um grupo de jovens. É nesse momento que Buggin’ Out e Radio Raheem irrompem fazendo convergir duas reivindicações que, até então, permaneceram separadas. Enquanto o primeiro insiste no reconhecimento de rostos representativos negros, o segundo afirma a vida negra pela voz e pela ocupação sonora do espaço. O olhar e a voz —dois objetos privilegiados por Lacan (2005) para pensar o desejo e o laço com o Outro— organizam, aqui, duas modalidades distintas da política do reconhecimento.
Quando a briga já não encontra por onde escoar, Sal profere injúrias racistas e, empunhando um taco de beisebol, despedaça o ghetto blaster. O tumulto desencadeado culmina com a chegada da polícia e o assassinato de Radio Raheem por estrangulamento.
É nesse instante que dois regimes atmosféricos se entrelaçam: a onda de calor, que faz vacilar os limites do suportável, e aquilo que Christina Sharpe (2016) denomina Weather: o clima total e pervasivo da antinegritude, a totalidade dos ambientes em que essa violência se torna possível e se repete —neste caso, sobre o corpo de Radio Raheem.
No entanto, a mesma onda de calor que anuncia a catástrofe também dá origem a uma infinidade de cenas de alegria, sensualidade e invenção. Numa sequência memorável, um grupo de jovens força a abertura de um hidrante e improvisa um aspersor que transforma a rua num parque aquático. Essa busca de alívio térmico atravessa também outros momentos mais íntimos. Num deles, Mookie desvia-se da sua rota como entregador e busca momentaneamente refúgio em casa, onde toma um banho refrescante. Mais tarde, Tina, a sua namorada, liga anonimamente para a pizzaria e faz uma encomenda para atraí-lo a casa, onde partilham um breve encontro erótico. Em ambos os casos, a vida escapa momentaneamente ao tempo do trabalho para encontrar um gozo sensual diante do calor, com ele e apesar dele.
Estas cenas sugerem que o calor não constitui apenas uma força de decomposição da vida social, pois, ao mesmo tempo que desvela tensões, promove formas extraordinárias de convivência e cria condições singulares para o prazer, a intimidade e a invenção coletiva que dificilmente aconteceriam da mesma maneira noutras temperaturas.
Contudo, as duas dimensões do calor vistas até agora resultam indissociáveis. A mesma condição atmosférica que nos convida a despir a roupa, desacelerar o tempo e nos entregarmos a uma certa erotização do social também nos irrita e angustia, tornando-nos prisioneiros de uma atmosfera pesada e peganhenta que, por vezes, nos faz perder a cabeça e, para muitas pessoas e seres, coloca a própria vida em risco. O calor irrompe, assim, como uma força ambivalente, capaz de intensificar tanto o desejo e o sentimento de estar vivo quanto a angústia e o sofrimento.
É esse ponto de ambivalência o que suscita interesse neste texto. Como manter a habitabilidade urbana ante o aumento das ondas de calor sem que isso nos conduza ao pior como acontece no filme?

No passado 27 de julho, o Governo de Espanha apresentou uma nova Rede de Refúgios Climáticos concebida para oferecer proteção à cidadania durante episódios de calor extremo. A rede ativará-se durante o verão e no momento da redação deste texto conta com um mapa que identifica 1.121 refúgios distribuídos por todo o Estado espanhol, a grande maioria localizados em espaços interiores: uma geografia da habitabilidade peculiar.
Basta uma olhada rápida nesse mapa para perceber a ideia de refúgio que orienta a iniciativa. Na Galiza, por exemplo, a rede contém nove refúgios climáticos, todos eles instalados em edifícios de caráter administrativo, como a Tesouraria Geral da Segurança Social, em Compostela, ou a Oficina de Imigração, em Ourense. Por enquanto, nenhum equipamento cultural. Mas isso não é tudo: a maioria dos espaços propostos restringe o atendimento ao público ao período da manhã, das 9h às 14h. Não há refúgio possível nas horas de calor mais intenso.
À primeira vista, o mapa provoca estranhamento. Não parece fácil imaginar alguém escolhendo passar uma manhã de calor extremo numa sede administrativa tingida pelo desencanto das atmosferas burocráticas. Menos ainda as pessoas em situação administrativa irregular, para quem uma oficina de imigração dificilmente pode ser experimentada como um lugar de acolhimento ou segurança. Certamente, um refúgio climático deve proteger os corpos do calor, mas também oferecer um lugar seguro onde valha a pena permanecer e estar junto a outros. O conforto térmico, entendido como uma condição isolada, não produz hospitalidade, refúgio ou sociabilidade; tampouco garante o bem-estar e, menos ainda, promove o entusiasmo.
Não obstante, o principal desafio dessa rede parece ir além da natureza dos edifícios. Se a iniciativa servisse para reencantar os prédios e reinventar os sentidos e as formas de habitar os equipamentos públicos —tantas vezes inhóspitos—: tanto melhor. Nesse sentido, acho que a reflexão deve ir além da crítica à localização ou à condição administrativa dos espaços designados, para colocar uma questão talvez mais relevante: como fazer desses equipamentos —ou de quaisquer outros espaços públicos ou comuns— lugares onde o refúgio se torne possível?
Daí algumas perguntas complementares: como transformar um edifício administrativo num espaço termicamente confortável e, ao mesmo tempo, num lugar de acolhimento, sociabilidade, encontro, desejo e aprendizagem coletiva, enquanto se preservam seus usos preexistentes e majoritários? Como fazer de um refúgio climático mais do que um dispositivo burocrático de gestão do risco, convertendo-o numa infraestrutura democrática e experimental sobre como viver juntos o pior das ondas de calor?
A rede desenhada pelo Estado parece esbarrar num impensável: a potência cultural inscrita na noção de refúgio climático, uma força disruptiva capaz de abalar a rigidez das atmosferas institucionais. Certamente, não basta reunir algumas cadeiras anónimas sob o ar condicionado, numa atmosfera igualmente anónima, e chamar a isso refúgio. Na época em que o clima, como questão política, alimenta imaginários catastrofistas, os refúgios climáticos oferecem a possibilidade de alterar o tom libidinal dessa política convertendo a necessidade de proteção numa alavanca para o desejo. Assim, mais do que meros dispositivos defensivos perante o calor extremo, os refúgios climáticos podem funcionar como lugares potencialmente oraculares onde a proteção se conjuga com o ensaio de futuros por inventar. Como não abraçá-los, então, como ferramentas para fazer dos equipamentos públicos espaços desejáveis de encontro e experimentação coletiva durante jornadas de calor extremo, sem que evitar morrer de calor suponha morrer de aborrecimento?
Dito isto, fazer dos equipamentos selecionados pela rede estatal refúgios dignos desse nome não parece uma tarefa fácil, na medida em que implica recompor as suas atmosferas administrativas. Talvez esse processo de ocupação, transformação e convivência heterogénea exija uma subversão sensível semelhante à reivindicação de rostos negros representativos na pizzaria de Sal.
No final de Do the Right Thing, Love Daddy —o radialista que acompanha a vida do bairro ao longo do filme— interrompe a saudação matinal para lançar uma pergunta à comunidade: “Are we gonna live together?”. A pergunta ressoa com uma reflexão recente de Lucrecia Martel (2025): “La cultura es una cosa muy delicada, fundamental para vivir. La cultura es donde nos encontramos a ver para dónde vamos” (p. 156). Talvez este cruzamento dê alguma pista para pensar uns refúgios climáticos culturalmente orientados: em vez de se limitarem a oferecer proteção anónima e desimplicada diante das temperaturas extremas, criar também as condições para nos encontrarmos e perguntarmos, juntos, para onde vamos num tempo marcado pela emergência climática e pela necessidade de reinventar as nossas formas de habitar o mundo.
Se aspiramos, portanto, a que os refúgios climáticos sejam mais do que uma política pública entre tantas ou um significante vazio, facilmente capturável por confrontações políticas inanes —como vemos estes dias em Ourense, a propósito da remodelação da Avenida Otero Pedrayo sob o selo de “refúgio climático”—, a sua especificidade cultural —a sua capacidade de transformação material e subjetiva— deve ocupar um lugar central nas nossas análises.
Talvez valha a pena, então, recuperar a ideia de planejamento fugitivo sugerida por Harney e Moten (2013); isto é: uma forma de planejar que pode aninhar em qualquer lugar onde seja possível experimentar coletivamente, a partir dos espaços e práticas ordinárias da vida, com formas de vida capazes de tornar outros futuros possíveis. Diante do calor extremo, isso significa não apenas sobreviver —sós—, nem apenas nos espaços institucionais, mas aprender a viver esse desafio juntos, em qualquer canto e encarando as transformações necessárias: com o outro, junto ao outro e, inevitavelmente, apesar do outro.