Uma das críticas mais doadas a qualquer prática transformadora é a esteticista ou formalista. Qualquer abandono das formas identitárias do grupo militante em função do sucesso comunicativo resulta um alvo idôneo para o ataque. Neste artigo de opinião, César Caramês escreve sobre estratégia, comunicação e o atual debate sobre as bandeiras no nacionalismo galego.
Hoje a vertente institucional do soberanismo galego é a segunda força política de Galiza, com mais representantes no parlamento autonómico que em toda a raquítica autonomia espanhola que padecemos. Já ora que isto nom significa, mecanicamente, umha vontade independentista maciça entre o nosso povo. Multitude de fatores influem sem que seja objeto deste artigo debulhá-los. Porém, gostaríamos de reparar numha pulsom antiga que ressurge sempre que o nosso movimento de liberaçom nacional aparenta algum avanço na aceitaçom popular em qualquer eido. A reafirmaçom nos símbolos, gírias e clichés identitários do grupo militante frente ao pragmatismo comunicativo co resto da sociedade. Se calhar, as polémicas sobre o emprego de tipos de bandeiras achegam-nos o exemplo mais ilustrativo quanto a esta questom.
A identificaçom dum símbolo com um grupo ou comunidade afunde-se nas tevras pré-históricas até enxergarmos totems e clans da loba ou do urso no nevoeiro arqueológico e na antropológia contemporânea. A analogia cos animais correspondia-se com múltiplas manifestaçons: danças, pinturas rupestres, berros imitativos ou artes marciais. Quiçais este último uso bélico resulte o mais caraterístico e prático. Os pendons e escudos pintados permitírom diferenciar os próprios dos inimigos no caos das batalhas antigas e medievais. Destarte, inevitavelmente, se algo define os símbolos grupais é a emocionalidade. Representam os apegos mais primários da sociabilidade humana. Aquilo polo que se mata e se morre se for preciso. A feminizaçom das pátrias-nai consonte o cliché patriarcal capitalista recorre precisamente a esse vínculo sentimental profundo e primitivo que medra a partir da família e do clam originais. Neste sentido, George Lakoff e as suas descobertas sobre o marco cognitivo da família como referente narrativo e emocional na política do Estado-naçom liberal permitem entender também o funcionamento dos seus dispositivos nacionalizadores. O arquétipo junguiano da nai terra (Návia, Dana, Juno, Hera…) identificado co volksgeist herderiano moderno, ainda mais.
Coa apariçom do Estado-naçom capitalista há dous séculos, estes elementos fôrom empregues para a construçom maciça de nacionalismos homogeneizadores. Em paralelo, produziu-se umha militarizaçom e disciplinamento das populaçons sem comparaçom na história da nossa espécie (comprove-se a efetividade do ensino, calcado da instruçom militar prussiana). Jamais um farrapo contou com semelhantes legions de sentimentais defensores em todo o nosso percurso evolutivo. E velaí que aquelas que tencionavam destruir a nova ordem também falárom a linguagem simbólica assentada. Nom poderia ser doutro jeito. Todas sabemos sinalar a bandeira anarquista, a comunista e a dumha míriada de povos, sem Estado ou com ele, em luita pola liberaçom. Ao cabo, abstrair-se dos mecanismos de comunicaçom racionais e emotivos dumha sociedade e época conduz irremediavelmente ao isolamento. Os «radicais» que renegam do emprego das redes sociais no presente constituem o exemplo mais evidente.
Mao Zedong, no seu discurso Contra o estilo de cliché de partido de 1941, manifestara-o coa sua tradicional franqueza: «Nós somos um partido revolucionário, trabalhamos para as massas; se nom aprendemos a língua das massas nom podemos levar a bom termo o nosso trabalho». Mao criticava naquele texto os vícios pequeno-burgueses que se introduziram no seio do Partido Comunista Chinês na fase de conquista do poder. Para além da proximidade ou distância ideológica, cumpre atendermos os conselhos dum estratega vitorioso. As suas maiores acusaçons dirigiam-se contra aqueles que faziam identidade de grupo como militantes frente ao povo. Com lucidez pragmática, apontava ao ego e ao sectarismo que se ocultava trás semelhante despropósito: «Se o fanatismo dos revolucionários pequeno-burgueses e a sua visom unilateral das cousas nom som contidos e corrigidos, podem facilmente engendrar o subjetivismo e o sectarismo, de que um dos modos de expressom é o estilo de cliché estrangeiro ou o estilo de cliché do Partido».
Nós, o povo galego como sujeito político moderno construido nos últimos douscentos anos, também temos bandeira. De facto, um feixe delas para o nosso soberanismo e muitas menos para a vizinhança coa que convivemos. A história da nossa simbologia nacional exemplifica à perfeiçom a crítica de Mao quanto à tensom indentitária grupo militante-povo, mas também a Penélope de Diaz Castro.
O velho escudo do cálice ou sacramento, com oitocentos anos representando o reino, é o que figura na nossa bandeira mais antiga conservada, a de 1806 que se mostra na sede do Terço de Galegos de Buenos Aires. Porém, Castelao quijo substitui-lo polo da sereia com fouce e estrela após a guerra do 36. Nom eram aceitáveis os símbolos religiosos depois dos massacres em nome da igreja no nosso país. Contodo, nom se popularizou entre as ringleiras soberanistas até a década dos noventa e Castelao já fora enterrado sob um gigantesco cálice com cruzes. Umha década depois, salvando religiom e estrelas vermelhas, apareceu a recriaçom do antigo estandarte suevo-galaico com dragom e leom confrontados.

Mas a briga pola simbologia galega mais antológica tivo lugar entre o regionalismo espanholista e o pujante nacionalismo no primeiro terço do século XX. A bandeira azul e branca, coa que se identifica a imensa maioria de galegas, nom provém dum desenho artístico de qualquer friki da heráldica, é umha escolha coletiva das nossas classes populares emigradas. Velaí a origem do rejeitamento entre os Sheldon Cooper da época. Couceiro Freijomil em 1930 criticou o emprego da bandeira com franja azul, já que a tradicional seica era completamente branca. Abofé que mui apropriada para a prática política regionalista. Baseava-se no livo Insignias y Blasones de Galicia, que B. Barreiro tirara do prelo em 1888, e num estudo de Vaamonde Lores publicado no boletim da RAG em 1919. Em carta de Vaamonde Lores a Couceiro em 1930, significava-se o pecado original da azul e branca: «La bandera que hoy se viene usando a capricho es la matrícula del puerto de la Coruña (blanca, con una faja azul en diagonal) y su jurisdicción no pasa más allá de la peña de la Marola y del monte de San Pedro». A gente do Centro Gallego de La Habana cuidara que a última bandeira que viram ao deixar a sua pátria era a do seu país. O soberanismo adoptou-na aginha e o brasom que hoje é oficial foi qualificado de separatista decontino frente à branca dos vexilólogos classemedieiros.
Nos anos 70, a geraçom mais importante para o soberanismo presente, a da UPG daquela década, coroou a azul e branca coa estrela vermelha dos movimentos marxistas e anti-colonialistas da altura. Esteticamente, possuía antecedentes: as mocidades galeguistas situaram umha estrela verde na esquina da bandeira e o Partido Galeguista colocava-lhe decote umha cruz de Santiago vermelha no centro. Nasceu a estreleira há menos de meio século. Conviveu nos inícios coa agora oficial sem problema, nom há mais que olhar as gravaçons de Carlos Varela. Porém, cumpre lembrar o também histórico debate entre o afouto Bautista Álvarez e o possibilista Camilo Nogueira. O primeiro sentenciava que a estreleira era a bandeira da naçom; Nogueira, que apenas a do nacionalismo frente à outra já assentada entre a totalidade do nosso povo. Separam-nos oito lustros de pesado regime do 78 desde aquilo e para as minhas vizinhas, alunado, nais, pais e colegas, a estreleira é «la bandera del bloque» ou, como muito, «la independentista». Identifica um grupo diferenciado do resto da sociedade. E, sim, decerto que é a minha. Mas as emoçons que na funda intimidade me produza a mim e às nossas camaradas nom fam avançar o soberanismo entre a nossa gente nem provocam que se identifique mais com ela. Apenas sinala que estamos, que seguimos aqui quando a ondeamos em cada conflito na defensa das nossas, e é muito.
O refúgio nas formas sempre oculta debilidade. O Estatuto de Naçom de Quintana chamava-nos assim, mas nom nos reconhecia os direitos aparelhados a essa categoria por fechar-se na Constituiçom Espanhola, pura fasquia. O de Bóveda do 36 renunciara à fórmula Estado livre na República Espanhola federável do rascunho do 31, mas permitia-nos recadar impostos e expropriar empresas colonialistas como nunca se poderia sonhar co do ex-vice-presidente da Junta. O fetiche da forma frente ao poder real, a febleza camuflada de reafirmaçom face ao avanço material. Botar por ela.
A última mostra da tensom constitui-a o atual debate sobre bandeiras que se perpetua entre certos setores soberanistas a imitaçom do que tivo lugar a começos do XX. Para o inefável autonomismo de extremo centro, a estreleira é refugável por revolucionária. Para o purismo de aparato, a assunçom da linguagem simbólica assentada já polo nacionalismo histórico deve condenar-se como autonómica frente à que identifica o grupo militante cara à sociedade. Se a opiniom dos primeiros resulta intranscendente, a dos segundos cede um espaço conquistado ao inimigo em funçom de interesses alheios aos objetivos estratégicos. Regalar-lhe a bandeira que cobriu os cadáveres de Rosalia, Bóveda e Castelao ao regime autonómico espanhol é umha irresponsabilidade. Algo que sabemos todas. A bandeira de Nunca Mais nom era estrelada, as bandeiras que os grupos locais do BNG repartem para as janelas no Dia da Pátria por todo o país, tampouco. Nengumha soberanista sacrificaria a possibilidade de pendurar bandeiras galegas no torreiro por teimar na comissom de festas em que fossem estreleiras. No cara a cara, a abstraçom do povo idealizado dos discursos esfarela-se contra a realidade da gente. A confusom entre radicalidade e estética resulta tam pueril que dá preguiça até invocar a Lenine para a escorrentar.
No procès catalám ondeárom todas as bandeiras, demonstrando que o soberanismo abraçava muito mais que o nacionalismo tradicional. O Projeto Estreleira também se envolve em todas, incluída, abofé, a sem estrela. O independentismo galego histórico nom precisa demonstrar que nom é moderado amaroufando-se nas formas, o independentismo catalám popular tampouco. Falar a linguagem simbólica ajeitada resulta tam importante na guerra de trincheiras da hegemonia (bençoado Gramsci) como nom renunciar, por taticismo, aos conteúdos do programa de transformaçom. Qualquer soberanista sincera há aceitar e até estarrecer co emblema oficial da República Galega, seja qual for. Quem sofre quer vencer para acabar co sofrimento, nom devece por identidades idealistas de grupo que lhe alimentem o ego sobre a comodidade dum privilégio de classe que nom possui. O resto é léria.