Perante o turismo/a visita: comunidade resiliente, benefício integral e narrativa

Elias J. Torres Feijó
05/09/2025

Elias J. Torres Feijó

O estudo do grupo Galabra revela que mais da metade da população de Santiago de Compostela rejeita o modelo turístico atual, cada vez mais massificado e desrespeitoso com a vida local. Para enfrentá-lo, o professor Elia J. Torres Feijó propõe medidas de compensação comunitária, gestão participativa e mudança de narrativa, orientadas ao benefício integral da cidade.

Na Rede Galabra, levamos desde 2008 trabalhando na relação locais-visitantes. Um trabalho que começou este Grupo de Pesquisa da Universidade de Santiago de Compostela e ao que se fôrom unindo colegas de diversas universidades. Alicerçamos esse labor em trabalhos de campo mui robustos, com margens de confiança de 95% e umha análise transdisciplinar que reúne desde economistas a antropólogas, desde linguistas a sociólogas, desde ecólogas a culturólogas.

Fotografia de Andrés Currás

O nosso objetivo primeiro foi entender em que medida as narrativas sobre Santiago de Compostela e o Caminho se relacionavam com as práticas das pessoas na cidade. Daí passamos a abordar as perspetivas, sensações e atitudes de habitantes, comerciantes e visitantes e oferecer os nossos resultados à comunidade académica, aos poderes e responsáveis políticos e organizações sociais, setoriais e cidadania, com exposições públicas, debates e trabalho comunitário com associações de pessoas moradoras, sobre a base do que denominamos o Compromisso Social Investigador e sempre que podemos.

Garantimos focagens independentes de qualquer entidade, o que reforça a nossa posição no campo do turismo crítico – que não é fácil em termos de obtenção de financiamento. Em todo o caso, a nossa índole e carácter de serviço público conduz-nos também a formular propostas. Propostas plausíveis, praticáveis com maior ou menor dificuldade. Focagens essas que gostaríamos estender a outras realidades de dentro e fora da Galiza mas por enquanto não temos capacidade para tal.

Parto, nesta breve aproximação, de que o turismo não é apenas inevitável como constitui umha realidade extraordinariamente condicionadora dos modos de vida, global e localmente. 

O que segue são ideias para que o desgaste que as necessárias atitudes resistentes perante os danos que o turismo provoca venham a ver-se reforçadas com benefícios resilientes comunitários, que permitam mesmo somar agentes diretamente ligadas ao turismo a esse propósito de benefício o mais geral possível e vincular-se com outros objetivos de bem-estar comunitário. Tentamos ofrecê-las ao debate e pensar doutro modo, mais eficiente, integrador e benéfico comum.

A compensação turística à comunidade 

Polo seu uso sistemático de recursos públicos ou comunitários (desde o espaço aos serviços de limpeza ou cuidado de ruas, praças e caminhos, até serviços de orientação e policiais, dos usos dos serviços sanitários e de transporte até a construção de estacionamentos ou plantio de árvores etc), a atividade turística deve medir-se, em termos de aceitação, benefício e rendimento, da comunidade local no seu conjunto. E isso através das suas representantes públicas, associações, coletivos, portavozes.

A comunidade local é a que sustém todos esses serviços que a atividade turística (visitantes e agentes/pessoas e entidades dependentes do turismo) implica. E mais alguns, derivados da própria atividade turística, por exemplo e especificamente, em termos de diminuição e carestia de vivenda ou de produtos em geral, nas necessidades logísticas de transporte de mercadorias e pessoas, no aumento da instalação de recursos para eventos ou no uso massivo dos existentes, na ocupação e perturbação da vida habitual no espaço público e na mobilidade.

Isto abrange não apenas as atividades turísticas que podemos denominar convencionais, mas todas aquelas que equacionam a relação entre visitante e comunidade local. Falo de turismo por esquematismo, mas, na realidade, melhor será falar de visita/visitantes, obviando agora a clássica distinção entre excursionistas e turistas e entendendo por tais quem se desloca a um espaço diferente do seu de maneira esporádica e não continuada.

Esses benefícios devem ser mensuráveis e desenhados previamente. Um deles, o menor, é a taxa turística, que deve ser investido nas necessidades ou prioridades da comunidade local, não para reinvestimento na atividade turística. Isto tanto polas razões anotadas antes, fundamentalmente, como também polo que implicaria de crescimento ilimitado dumha atividade que tem, precisamente, no seu volume de carga (não apenas físico, mas ambiental, de recursos e, sobretudo, de bem-estar e modos de vida: ruídos, sujidades, locais interditos polo volume de pessoas ou desaparecidos por novas atividades não vinculadas à sua configuração histórica, circulação obstaculizada, etc.) a sua principal consequência negativa. E, também, por uma razão basilar e negligenciada: que é à soberania popular que corresponde o uso desses recursos, não a particulares na sua relação com essa soberania.

Três caraterísticas da ação local em relação ao turismo

Mas os efeitos (possíveis e) fundamentais residem, a meu ver, no impulso de atividades, ações e espaços pensados em termos de benefício local. Elas devem apresentar três caraterísticas fundamentais:

a) Que redundem no bem-estar social da comunidade local ou que, no cálculo necessário de prejuízos e benefícios, estes últimos sejam superiores e aceites pola comunidade no seu conjunto. Pode melhorar-se umha estrada que beneficie acessos, a condição de que os inconvenientes conjunturais para as pessoas da comunidade que a usam, o impedimento de passagens, o ruído produzido, o transporte de materiais, os investimentos realizados ou a nova situação estrutural (maior volume de uso e implicações desse uso no espaço público e na vida das pessoas, por exemplo) sejam resultado do acordo comunitário. A recuperação (ou a construção mas só excecionalmente; sempre é preferível recuperar) dum imóvel de valor patrimonial e/ou afetivo comunitário deve fazer-se na lógica do benefício que a comunidade irá tirar dos seus conteúdos e usos, que pode, também e naturalmente, ser atrativo para visitantes.

b) Que sejam integradoras e que definam prioridades estratégicas: isso implica considerar nas iniciativas o conjunto da comunidade local interessada ou afetada e atender à iniciativa cidadã, através de mecanismos realmente participativos. Mas convém ir além: desenhar ações que corrijam desigualdades internas, que atendam setores menos favorecidos ou precarizados (por exemplo, pessoas com mobilidade reduzida ou de maior idade e, naturalmente, setores de maior desemprego); também que utilizem ou incorporem recursos da produção local ou a fomentem em termos de sustentabilidade. Aquela melhoria de estrada e os tipos de uso previstos devem atender a essas mobilidades, ao seu bem-estar, priorizar as trabalhadoras locais e desenhar usos integrais veiculados ou integrados no uso através dessa estrada dentro desses setores locais. E aquele imóvel? Terá cantina? O que oferecerá? Será um museu interativo sobre a comunidade local? Reservará-se espaço para a produção local, agrícola, artesanal, artístico-cultural? Quem realizará os vídeos ou o mantimento periódico? Quem guiará ou estará na bilheteira, que não cobrará às pessoas locais? Quem e como usará o seu auditório? Quem elaborará isso tudo? Muitas vezes pôr em valor significa recuperar (antigos saberes ou técnicas, por exemplo) ou atualizar; a inovação deve estar atenta à tradição que a comunidade mantém.

c) Que tenham a interseccionalidade como eixo principal. Não único nem sempre. Pode haver atividades e espaços que a comunidade queira reservar para si de modo prioritário ou quase (difícil que seja totalmente) exclusivo; umha comunidade que pode ver como crescentemente os espaços e as atividades que elaborou, definiu e usou ao longo da sua história são ressemantizados ou absorvidos e de que se sente – ou é diretamente – expulsa. Chega-se ao paradoxo habitual do equívoco: visitantes julgam estar utilizando de modo correto e adequado espaços nos quais operam de formas contrárias ao sentido e aos sentidos (e práticas) com que nascêrom ou fôrom usados para (e por) a comunidade local: aquela praça, aquela rua, aquele café, aquela loja, aquela celebração. Neste sentido, usos compartilhados e equilibrados entre comunidade local e visitantes pode ser índice de usos saudáveis, no entendimento de que nem a comunidade se viu obrigada a retirar-se nem é hostil à presença visitante, nos termos em que ela deseja. A oferta e produção culturais devem ser especialmente cuidadas e privilegiar, sem género de dúvidas, as locais. Isso constitui, igualmente, umha mensagem de raiz, amável e assente nessa soberania: que a comunidade aceita e quer ser visitada polo que é e produz, não pola sua adaptação desnaturada e descaraterizada a um eventual gosto visitante. A visita deve ser reforço e impulso para o que a comunidade é e produz, não veículo de aculturação. Umha estrada, um museu, umha festa, um livro, um passeio, qualquer infraestutura que for produzida e/ou pensada da comunidade local (e pensando nela). E proteção e impulso para as existentes. A cultura está constituída polos modos em que as pessoas estão no mundo, como o classificam e atuam: um canto, um cântaro, cultivos, culinárias, crenças, costumes, um ilimitado C de Comunidade.

Dessazonalizar? Deslocalizar?

O que será daquele espaço verde, daquela rua, daquela banda musical, daquele mercado, daquele costume aos serões? Responder às perguntas enunciadas deve fazer-se com essa cautela em forma de premissa maior.

Muitas pessoas calculam, talvez em bastantes casos inconscientemente, que a desestacionalizaçãotrata de distribuir, mais ou menos, o número de visitantes ao longo dos doze meses do ano. Não; as pessoas viajam quando querem dentro de quando podem. Transformar destinos estivais em anuais atrairá mais pessoas e, se não se remediar, de similares perfis de uso e consumo.

Outras muitas pensam que deslocalizar fará com que recuperem os espaços, os usos, os consumos e os hábitos perdidos; polo contrário, estenderá a perda e os prejuízos associados – e pode que os ganhos não (os) compensem – com o mesmo motivo e no mesmo sentido antes anotados.

Se não houver garantias do cumprimento dos itens anteriores, tanto a dessazonalização como a deslocalização podem resultar irreversivelmente lesivas para a comunidade local, por um lado, ao estender no tempo usos nocivos ou incomodidades que se concentram em determinados momentos e, por outro, ao invadir as suas atividades e os seus espaços próprios e protegidos. O que parece bondoso pode resultar letal e acabar num – salvando as distâncias, claro – efeito Prestige: em vez de sacrificar duramente umha ria que, com o tempo, poda ser recuperada, estender o petróleo por todas as rias, pretendendo tomar umha medida benéfica, ao afastar o barco no espaço (se ele se partir, como aconteceu).

A narrativa, o discurso

O corolário disto tudo é a viragem da narrativa, de tal modo que se consiga dar impulso a umha cultura turística, local e visitante, que se centre noutras dimensões.

No caso de Santiago de Compostela, campanhas como a da associação de moradoras A Xuntanza do bairro de S. Pedro, com o seu decálogo de boas práticas, ou a da câmara municipal compostelana do “frágil” para o património (já agora, umha campanha publicitária em que até visualmente a comunidade local está ausente) são manifestações da necessidade de que o uso mude através da narrativa. De todos os modos, esses acabam por ser discursos que, com vocação resiliente, funcionam apenas como resistentes, incompletos e evidenciam manifestações de certa impotência, se não forem acompanhados do despregamento dumha estratégia holística, nos termos acima apresentados. Tal estratégia não pode estar completa se a narrativa, projetada tanto na publicidade externa quanto a expressada in situ, não mudar. Se se insistir em determinados discursos (o do Caminho de Santiago e a «caminhização» consequente, nos termos atuais), continuará mantendo-se a indiferença da visitante pola comunidade local, por vezes até derivada num certo «direito de conquista», acompanhada do não ou pouco consumo e muito uso como valor forte da visita, sem que a comunidade local, que facilita umha cousa e a outra, exista ou fazendo-a subserviente à vontade das visitantes.

A viragem implica substituir tais discursos por outros que interessem à comunidade local e conseguir que esta e as autoridades sejam especialmente ativas e apoderadas para poder enviar umha mensagem diferente, plural e respeitosa, cuja concretização, obviamente, supera as margens deste pequeno texto. Investigações do grupo e da Rede Galabra mostram que a cidadania compostelana está disposta e quer interatuar com as pessoas visitantes. Entre a enorme quantidade de dados que albergam as nossas bases, com trabalhos de campo que superam 95% de confiança, salientam-se, para o caso, dous:

  1. 45,91% das pessoas visitantes, à pergunta de teriam interesse em falar (mais) com a comunidade local, e numha escala de 1 (nada de acordo) a 8 (absolutamente de acordo), respondem 1: nem um 3 ou 4 de cortesia. Restantes valores: 14,80%, 2; 5,64%, 3; 1,19%, 4; 2,54%, 5; 5,90%, 6; 8,59%, 7; 15,42%, 8. Resultado de paisagens sem gente. 
  2. Num recente inquérito sobre a população adulta de Santiago de Compostela com mais de 600 entrevistas, que inclui Teo e Ames até completar 914 pessoas inquiridas, 50,9% manifestam não gostar do tipo de turismo; isto é, 22 pontos mais do que há 10 anos. Quando perguntadas sobre o perfil desejado dessa nova visitante em resposta aberta que aqui agrupamos, indicam o seguinte:

-Pessoa educada e respeitosa com os locais e a cidade: 51,7 %.

-Pessoa informada com um interesse real pola cidade, a sua cultura e história: 23,2 %

-«Menos quantidade e mais qualidade»: 18,5 %

-Pessoa com um poder adquisitivo alto, que gaste mais na cidade: 16,4 %

-Perfil de turista mais variado. Não só peregrino ou religioso: 11,8 %

-Estadias de maior duração: 7,5 %

-Dessazonalizado e distribuído por toda a cidade:  2,3 %

-Outras: 1,9%

Está dado, por parte da cidadania, o perfil, o guião do discurso, de maneira única. Na minha opinião, melhor mui dificilmente… para não dizer impossível.