Partindo do arquivo fotográfico do Museo Etnolóxico de Ribadavia e das fotografias de labregas galegas incluídas nele, a antropóloga Lucybeth Arruda (Universidade Federal Oeste do Pará) propõe uma reflexão interdisciplinar entre a antropologia, a fotografia e o gênero.
«Imaginar é dar ao imaginário um pedaço de real para roer».
Jean Paul Sartre, em Saint Genet: ator e mártir (2002)
A partir de fotografias, olho para fragmentos de mundos humanos e/ou não humanos e elas me ajudam a pensar. Melhor dizendo, elas me provocam e me convocam a pensar.
No seu livro Como pensam as imagens (2012), Etienne Samain traz questões pertinentes para refletir «como» as imagens nos fazem pensar e nos colocam diante de vertentes e concepções que também partilho –concebendo a imagem como portadora de pensamentos que, em princípio, leva consigo algo do objeto representado. Para o caso da fotografia ainda é importante levar em conta o pensamento e valores de quem a produziu e, também, os pensamentos dos espectadores, daqueles que fazem o movimento de olhar e ler as imagens a partir de seus valores, fazendo assim intervenções, às vezes, deliberadas.
A intenção deste exercício de escrita será acessar fotografias com o tema «mulheres no rural» e produzir reflexões teórico-metodológicas acerca do diálogo entre antropologia, história, fotografia e gênero.
Neste escrito, concebo a imagem fotográfica não como um objeto a ser analisado (tampouco tendo bases sociológicas como centrais) e sim como imagens etnográficas que alargam sentidos e sensibilidades, com interpretações que desdobram ou complementam situações e contextos. Para isso, lanço mão dos olhares de mulheres que se autodenominam labregas sobre as fotografias, com o objetivo de dar a ver possibilidades de interpretações nos campos da antropologia e a história.
As fotografias que trago para este texto pertencem à base de dados do Museo Etnolóxico de Ribadavia. A minha pergunta inicial foi saber se no acervo fotográfico do Museo havia fotografias de mulheres labregas, camponesas. De antemão, sei que essa classificação de mulheres labregas tem implicações conceituais em vários sentidos –seja social, cultural e/ou político. Talvez como aproximação do que eu imaginei, poderia dizer que estava procurando fotografias de mulheres que vivem ou viveram no rural galego.
Caso encontrasse fotografias, a questão seguinte era como essas mulheres aparecem retratadas. Ao pesquisar o acervo, tentei como primeira entrada na base de dados as palavras «muller labrega»; depois, «muller campesina»; mais tarde com a ajuda do olhar perspicaz de César Llana, pesquisador, diretor do museu e meu supervisor, que conhece o acervo com precisão, entrei com a palavra «muller». Foram alguns dias olhando para 3800 fotografias. Dessas, selecionei pouco mais de 100 fotografias em que aparecem uma ou mais mulheres como foco central do fotógrafo, na representação do que estou concebendo como mulher labrega. Uma quantia pequena em comparação com o universo de 3800 imagens. Esse dado traz questões para pensar sobre a visibilidade ou invisibilidade dessas mulheres no conjunto das fotografias. Porém, deixo essa reflexão para outra oportunidade.
A palavra labrega é aqui usada anacronicamente. Tomo a concepção de labregas de Lidia Senra, em seu artigo «Somos labregas», publicado em 2021 na revista dos sócios e sócias do Museo do Pobo Galego, Adra. Nele, labregas são as que trabalham no marco da exploração agrária familiar. A autora concebe ainda como um coletivo de mulheres que vivem e trabalham no meio rural.
A proposta será olhar para as imagens para além do apelo estético e saber sobre as vivências das mulheres labregas de Galiza. Segundo Carlos Rodrigues Brandão em seu artigo na revista Cadernos de Antropologia e Imagem «Fotografar, documentar, dizer com a imagem» (2004), toda imagem fotográfica há uma dimensão de sensibilidade artística a não ser quando for produzida estritamente com o objetivo técnico e informativo. Primeiro, se faz necessário situar essas imagens no tempo e no espaço.
As fotografias que encontrei estão num recorte temporal do final da década de 1940 a 1995 e numa espacialidade que é a Galiza, podendo ser Vigo, Riba d’Ávia, Ourense, Lugo ou Bezerreã, ou ainda, uma aldeia como as Cortelhas, Seca, Francelos ou Paços. Depois de alguns anos vindo para a Galiza, guardadas as devidas proporções, consigo perceber que há muitas diferenças nos modos de fazer e de ser galego, neste caso, de ser galega a depender da aldeia, sendo uma do Condado, do Ribeiro ou ainda dos Ancares. Porém, percebo, também, que nesses modos de fazer das mulheres galegas há ações, gestos e concepções que as atravessam e as identificam, apesar de um lugar estrito da Galiza, podendo vê-las como uma unidade ou unidades que as constituem social e culturalmente como mulheres labregas galegas.
Partindo dessas imagens de diferentes temporalidades, passo a expor o método. Resolvi fazer um trabalho em que as fotografias funcionassem como ativadoras de memórias. Apoiando-se outra vez em Etienne Samain (2012): «as imagens são poços de memórias e focos de emoções, de sensações […]. Elas nos direcionam para outros horizontes e novos territórios da memória: toda imagem é uma memória de memórias, um grande jardim de arquivos declaradamente vivos».
Dentre o universo de fotografias que selecionei, escolhi aquelas em que aparecem os rostos das mulheres; outras em que elas aparecem trabalhando na terra, no monte ou em volta da casa; e outras onde elas aparecem com suas ferramentas de trabalho ou, ainda, com os animais como vacas e galinhas. De posse dessas imagens, mostrei esse conjunto para as mulheres que conheço e que se autodenominam labregas. O movimento foi fazer que ao olharem para as fotografias, elas pudessem caminhar sobre os elementos presentes nos enquadramentos que fizessem sentidos para elas, fazendo-as falar e conectando com suas vivências, alimentando imaginários e as ligando com um passado de relações de pessoas e coisas. O exercício se mostrou produtivo. Vários elementos se colocaram como pontos ativos de reconhecimentos e oferecendo, em termos de apreensão e de compreensão das memórias dessas mulheres, um diálogo de rede de relações (não somente de signos como também de significados). Importante informar que esses olhares são de mulheres de idades e lugares diferentes da Galiza, que não se conhecem e outras que são amigas. Chamo atenção para essa representação de mulher labrega e indago sobre a permanência no tempo dessa representação, porém, informo que não estou à procura de uma reconstituição total do passado, «a ponto de fazê-la reviver no presente», conforme François Dosse diz em seu livro História e ciências sociais (2004).
De forma pontual, partilho com vocês, leitores, três fotografias que foram mostradas para mulheres de vários lugares da Galiza em que elas reconheceram elementos que fizeram falar de suas vivências e aqui as coloco como um olhar compartilhado, reforçando um sentido de solidariedade tanto em termos de gênero quanto em termos dos modos de fazer e ser.

Ao mostrar essa imagem para Laurentina, mulher labrega de 93 anos, que vive na aldeia da Seca, em Padrons, cerca de Ponte Areias, me disse: «Não são daqui de Padrons, são do médio de Ponte Vedra, pero são galegas. Mira-se no estilo de atar o pano. Reconheço pola forma de vestir. Eu atava o pelo assim, com um pano de quatro pontas e atava aqui arriba. Isso, eu fazia quando era uma chavala».
Teresa, de 76 anos, de Pitões das Júnias, fronteira entre Portugal e Galiza, quando olhou para os rostos das mulheres disse: «Não são daqui, mas, esta podia ser a minha tia Rosa, parece muito com ela. Parece muito também na forma de vestir, nós vestimos muito parecidos com as [mulheres] de lá». Aqui, pontualmente, chamo atenção para essa fronteira fluida –conforme Ulf Hannerz (1997)– entre norte de Portugal e sul de Galiza, que se conectam e se cruzam.
Esse reconhecimento de se ver e de lembrar de rostos que se parecem me leva a incorporar a visão de Stuart Hall em A identidade cultural na pós-modernidade (2006) que afirma que a identidade é construída «não fora, mas dentro da representação».

Nesta imagem acima, todas pararam com mais tempo para tentar ver o tipo do sacho que esta mulher levava apoiada ao seu ombro. O sacho e as ferramentas de trabalho nos levam a uma arqueologia dos saberes, nos termos de Foucault. A partir dessa fotografia, Eloisa, Esther, Digna, Maria, Teresa e Laurentina deram aulas sobre a forma de usar os diferentes tipos: redondo, quadrado ou de ponta mais bicuda, mango curto, longo ou gordo. Segundo Maria, de 35 anos e de Bezerreã, nos Ancares: «tem muita diferença e en diferentes sítios, chama-se de diferentes formas». Ela me explicou fazendo vários desenhos. Aqui deixo a imagem em forma de texto narrada por ela: «O rodo, por exemplo, normalmente se usa para pechar a água, para colher torrons de terra, pero, não vale para trabalhar a terra. Para colher torrom, para quitar a água ou para quando queira quitar a capa de erva ou quitar a terra para empezar a trabalhar. Despois, o sacho, chamo-lhe a isto, tem a ponta mais bicuda e vale para fazer regos. Ainda lhe chamo isto de picachom, quando há terra mais dura ou ainda tes que fazer um furom mais grande e mais tal… Para mim, são esses três. E esse da foto, parece ser um sacho».
Teresa também afirma: «este sacho não é de aqui, é do lado galego, este é de roçar o mato, os tojos, as carquejas e, também, dá para cavar, é mais reforçado». Laurentina: «parece um sacho, mas, esse mango é muito gordo». Digna (66 anos), Eloisa (77 anos) e Esther (64 anos), depois de falar das diferenças entre os sachos, afirmaram: «Pois esse é redondo por detrás e termina em ponta abaixo. Gente que está acostumada com un sacho, mesmo tendo diferenças, trabalhava igual com ele».
Esse compartilhamento de olhares nos fala de saberes que atravessam gerações de mulheres em várias espacialidades da Galiza e nos dizem muito sobre quem são e como vivem hoje, insisto não como uma reconstituição do passado, mas como um olhar para dentro e que constrói suas próprias histórias de vidas. O objetivo com esta operação é expor o presente ao qual pertence sem ignorar o movimento permanente entre elementos e situações que persistem e outros que escapam ou que estão para sempre ausentes, tendo consciência da transformação e do processo histórico.

Por fim, esta imagem também rendeu conversa de Digna, Eloisa e Esther: «Aí andam a botar as patacas. Fazem os regos. Está o cesto coas patacas e essas são as berças para prantar. Aqui diziam que as berças melhores são as prantadas coas patacas. Botava dous carreiros de patacas e um carreiro de berças, polo meio. Porque depois, ao cavar as patacas, lhe fazia bem para as verduras. Para a verdura era muito melhor do que se prantava sola. O trabalho é em conjunto, uma está a prantar as patacas, aquela está a pô-las e a outra está a levantar a terra. A que está agachada está a pôr as patacas».
À guisa de conclusão, os saberes dessas mulheres espectadoras aparecem nos detalhes de suas narrativas, ativadas no diálogo entre si e com as fotografias. Viram as fotografias e reconheceram o trabalho delas e de suas mães e avós nos eidos, nas chouças, no monte. Em seus relatos narraram sobre as vestimentas, as ferramentas de trabalho, as vinhas, os frutais, a horta, como plantar as batatas e as berças, as criações de gado, as galinhas, os produtos da casa –fazer o chouriço, o vinho, a tortilha com os ovos de suas galinhas. Nos relatos aparecem também uma arqueologia dos afetos: lembraram das festas, do lazer misturado ao trabalho que as juntanças das lavradas propiciavam, das cantigas e dos desafios. Digna reafirma: «a gente trabalhava moito, pero, também se divertia. Eu era criança, mas, eu lembro».
Fecho com um diálogo próximo ao que propõe Tim Ingold em Lines: A Brief History (2007) para pensarmos a vida, lançando como um caminho que perfazemos ao longo da nossa existência «como um fluxo transgeracional carregado de pessoas e saberes em desenvolvimento perpétuo». Encerro esta breve reflexão, com as palavras de Esther, entendendo esses saberes como frutos da vivência, «a gente vai colhendo co paso dos anos e coa experiência dos nossos».