Iconologias arquitetónicas para umha Galiza do espetáculo: três exemplos de um tempo festivo (1999–2005)

Santiago Rodríguez Caramés
20/01/2023

Santiago Rodríguez Caramés

Quais som as relaçons entre arquitetura galega contemporânea e o aparato ideológico que surgiu com o Estado das Autonomias? Da Cidade da Cultura à falida Casa da Historia projetada durante o Vazquismo corunhés, o historiador da arte Santiago Rodríguez Caramés analisa a relaçom entre ideologia, identidade e a arquitectura estelar patrocinada polo novo milénio na Galiza.

No trânsito do século XX para o XXI, a Galiza estivo muito influenciada polo clima de otimismo económico e o artefacto ideológico articulado desde o estabelecimento do Estado das autonomias. A arquitetura nom só fijo parte deste processo, como também se converteu num dispositivo de poder de primeira ordem. Os principais produtos arquitetónicos surgidos neste contexto figérom parte de um projeto mercadológico baseado na toma de referências simbólicas vinculadas à identidade cultural do país. Antes de mais, cumpre contextualizarmos esta viragem da arquitetura galega até aos exemplos desse «efeito 2000».

Na verdade, a arquitetura galega vinha experimentando desde os anos setenta umha intensa mudança nas suas estratégias expressivas. A necessidade de contestar a universalizaçom e uniformizaçom estética e técnica da arquitetura moderna deu lugar a um clima de assimilaçom da tradiçom própria e de aplicaçom desta à criatividade contemporânea. Este interesse nos elementos próprios da tradiçom vernácula é paralelo a numerosas perspetivas teóricas internacionais que fôrom surgindo como resposta à homogeneidade da modernidade canónica e às posturas reacionárias que, desde os anos sessenta, articulárom o que se deu a conhecer, grosso modo, como arquitetura pós-moderna. A nova arquitetura vernácula de Vicky Richardson ou o regionalismo crítico de Alexander Tzonis e Liane Lefaivre, popularizado desde logo por Kenneth Frampton, colocárom na teoria questons como a atençom às técnicas, materiais e artesanatos tradicionais, a adaptaçom ao lugar ou o desdobramento do repertório icónico das tipologias vernáculas, do uso de elementos simbólicos das mitologias locais ou da identidade de umha regiom ou naçom. Nom é por acaso que Tzonis e Lefaivre, por exemplo, visitassem a Galiza e falassem destas dinâmicas mais contidas na obra de Pascuala Campos, César Portela ou Manuel Gallego nos anos oitenta.

Porém, como dizemos, estas visons costumárom partilhar umha desconfiança: a da apropriaçom, por parte dos poderes económicos e políticos, destas linguagens vernaculares, e da sua viragem em produtos de consumo, objetos reificados ou representaçons estereotipadas dessa identidade. Mas, como é que estas olhadas chegárom até as arquiteturas estelares galegas do fim do milénio que vamos analisar? De algum modo, essa autorreflexividade que caraterizou boa parte da arquitetura contemporânea galega —ou, se calhar, aquela mais «celebrada»— generalizou-se na receçom crítica —quer na própria Galiza, quer na difusom estatal e internacional, que cresceu exponencialmente— e foi assimilada polo aparelho ideológico autonómico. Eis a base dos três casos a analisarmos, cuja seleçom vem dada por mais duas questons: a presença de diferentes poderes e a competência entre as principais cidades do Eixo Atlântico, todas elas querendo criar as imagens de umha Galiza do século XXI através de um repertório de formas simbólicas. 

Para compreendermos a confluência destes dous vetores —crítica e poder político—, cabe começar polo exemplo mais conhecido desta dinâmica, a Cidade da Cultura. Já desde a aprovaçom do Estatuto de Autonomia, o novo governo precisou da arquitetura para o desenvolvimento de toda a nova infraestrutura administrativa, mas também como celebraçom dessa nova Galiza «modernizada». Apesar da aposta inicial do poder autonómico no trabalho com consciência e vinculaçom com a cultura do país das arquitetas galegas, esta perspetiva foi-se banalizando na medida em que as instituiçons públicas entrárom no turbilhom do «efeito Guggenheim» e a necessidade de criarem grandes referências arquitetónicas. Fruto do aparato ideológico fraguiano e da galeguidade subordinada que subjazia no seu conceito de autoidentificaçom, as bases do concurso da Cidade da Cultura recolhiam a vontade de criar «um novo Obradoiro» que abrangesse a milenária cultura galega e a vontade de abertura da Galiza ao novo milénio. Eisenman, arquiteto ganhador do concurso, soubo interpretar perfeitamente as inquedanças do governo autonómico com a sua parafernália retórica. Embora resulte óbvio após vinte anos de polémicas ao redor do Gaiás, e graças à perfeita simbiose entre um poder político e um arquiteto com anseios de grandeza, existem poucos projetos em que o formalismo da proposta desborde de umha maneira tam evidente qualquer tipo de adaptaçom ao contexto e às suas necessidades concretas.

A iconologia é a principal base da criatividade e a composiçom arquitetónica de Eisenman, um arquiteto muito familiarizado com a teoria estruturalista e, com certeza, com a desconstruçom. Na voragem jacobeia e o seu fetichismo icónico, Eisenman usou a vieira como elemento reitor da composiçom do seu projeto. Para além disto, Eisenman interpretou literalmente a vontade de «criar um novo Obradoiro», trasladando o traçado das principais ruas da cidade e incluindo as torres que o seu amigo Hejduk desenhara anos antes para um jardim botânico nom realizado no parque de Belvis. Neste processo de caraterizaçom simbólica do projeto fôrom também fundamentais críticos muito influentes como Luis Fernández-Galiano, grande valedor de Eisenman no Estado espanhol e que, como membro do júri, foi um dos grandes responsáveis da escolha deste projeto. Em suma, a vinculaçom a um tipo de memória exibia-se como justificaçom e legimitaçom ideológica do projeto, que pretendia erigir-se como a contrapartida contemporânea à longa tradiçom da cidade e como resultado da laicizaçom do fenómeno da peregrinagem que o governo de Fraga impulsou através dos Jacobeus. 

Vaiamos agora para um segundo caso de estudo. Se a Cidade da Cultura desconstruía um abano amplo de formas, a proposta do estudo neerlandês MVRDV para o concurso da Casa da História da Corunha (2003) apelava a umha referência formal tam evidente como o próprio mapa da Galiza (veja-se a imagem da capa). A Casa da História foi um projeto fracassado convocado nos últimos tempos do governo de Francisco Vázquez para o ordenamento do âmbito do castro de Elvinha e a construçom de um centro de interpretaçom da cultura castreja e da história do país. Embora fosse o carvalhinhês Manuel Gallego quem venceu o concurso, nele concorrêrom estudos de renome como os de Zaha Hadid, David Chipperfield ou Gigon-Guyer. Sob o título «Galiciamania», a pretensom de MVRDV, como expressado na apresentaçom do projeto, era «pôr a Galiza no mapa», iconizando a própria substância do país para criarem um referente visual, publicitário ou, numha absoluta perda de qualquer ordem racional, «una variante contemporánea de la isla de Pascua» [sic]. Face à tónica geral dos diferentes projetos apresentados, a posiçom satírica e reacionária de MVRDV desvelava-se problemática desde o próprio modo de se assentar no terreno: o prédio, tendente à verticalidade num entorno elevado sobre a cidade, teria erguido um grande mapa da Galiza por cima de toda a paisagem suburbana corunhesa. Contudo, a questom formalística vai para além de qualquer dissimulo, levando os caraterísticos modos de expressom iconológicos pós-modernos até às últimas consequências.  Aliás, ninguém levou a sério esta proposta, que ficou muito longe de qualquer possibilidade de ser o projeto escolhido, mas evidencia, em síntese, a habitual tendência neste tipo de arquiteturas estelares a reduzir os projetos a ícones e clichés. Mais umha vez, encontramo-nos face a um caso de poderes políticos que oferecem espaços para o desenvolvimento de projetos com visons histriónicas da galeguidade.

Para concluirmos com um terceiro exemplo, outra das referências mais empregadas já pelos arquitetos para venderem os seus projetos, já nas interpretaçons da crítica, foi a apelaçom a elementos da história do país, muitas vezes indeterminados, como àqueles da cultura megalítica ou da cultura castreja. Estas referências iconológicas, que fazem parte da conceçom da Galiza como um lugar remoto no fim do mundo, provem de umha base quase telúrica aos conteúdos poéticos e participam de umha alteridade em termos de identidade e criaçom cultural. Esta tendência é aplicável ao «Peirao XXI» do francês Jean Nouvel (2005), um projeto apresentado no concurso para a ampliação da doca de transatlânticos de Vigo convocado por quem daquela era o presidente da Autoridade Portuária —a «outra presidência» municipal de Vigo— e mais um amante da megalomania política: Abel Caballero. A proposta de Nouvel incluía espaços para o convívio, um jardim das marés e, como elemento principal para se vincular a umha certa identidade «atlântica», umha torre com forma de menir destinada a hotel e pensada, como já ensaiara na Torre Abgar de Barcelona, para ser iluminada à noite. Felizmente, as dimensons desproporcionadas do projeto —como também as mudanças nos governos municipais e autonómico nos seguintes anos— impossibilitárom a construçom de um projeto que, sob a falácia de criar um espaço para a cidadania, agachava umha operaçom especulativa disfarçada através da potência comunicativa do menir. Se Compostela podia ter a sua nova referência, Vigo —a sua Autoridade Portuária— procurava umha referência visual para se homologar com as majestosas e impactantes frentes marítimas das grandes cidades como Barcelona, usando para isso umha forma reconhecível da história do país.

Jean Nouvel, Peirao XXI (Vigo, 2005).

Em conclussom, os projetos estelares do novo milénio recolhêrom umha série de dinâmicas expressivas e retóricas que, ora desde a crítica, ora desde as próprias propostas dos arquitetos do star system, constituírom umha olhada alheia e condescendente com a identidade e a cultura galegas, pondo-as ao serviço do aparato ideológico autonómico e ao serviço do capital. Sob esta festividade identitária, estes projetos ocultárom a especulaçom urbanística, a fiscalizaçom da cultura ou a perpetuaçom do predomínio do Eixo Atlântico, construindo umha espécie de nova hegemonia em que todo traço da memória vernácula e a identidade do país foi colocado num quadro de representaçom onde os elementos culturais se tornárom em produtos de consumo e mercadologia. Assim, Compostela, Vigo e a Corunha entrárom numha lógica competitiva para a consecuçom de novos símbolos que as erigissem como referências da nova Galiza autonómica, umha Galiza que demonstrasse a sua posiçom num mundo globalizado sem renunciar à sua cultura.