Pode o projeto decimonónico de criar um relato histórico galego ter-se saldado com um fracasso final? Que problemas metodológicos e empíricos leva encontrado desde o século XIX até hoje? Pablo Pesado recompila alguns deles para defender que a epistemologia nom é autónoma a respeito da política, e que a inserçom da Galiza no Estado Espanhol impede necessariamente culminar esse labor histórico com sucesso.
Uma das primeiras tarefas assumidas polo movimento nacional galego desde a sua apariçom foi a construçom de uma narraçom histórica autocentrada. Abrange, no mínimo, desde o xix até aos nossos dias, e nela fôrom investidos nom poucos dos nossos melhores esforços intelectuais. Porém, se medirmos o sucesso desse projeto polo seu grau de implantaçom social do país, os resultados parecem mais bem limitados.
Neste artigo tentarei explorar uma hipótese a respeito dessa derrota ideológica: a ausência de um processo independentista sucedido coloca toda a história galega num terreno epistemológico instável. Ou, ao invés, a delongada integraçom da Galiza nas distintas fórmulas de estatalidade ensaiadas pola atual Espanha causa que o modelo tradicional da história nacional nom funcione como se esperaria dele.
Com esse fim analisarei uma série de problemas práticos que emergem do paradoxo de escrever uma história nacional sob o domínio de uma outra naçom. Tomarei ideias das ferramentas da análise narrativa da historiografia desenvolvidas a partir da meta-história de Hayden White, da estética da receçom da Escola de Constança e da sociologia da academia pós-bourdieuana. O objetivo último nom será defender a idoneidade metodológica da velha e aviltada historiografia de base nacional, mas descrever um contexto em que se tenta apreender a experiência histórica em dous relatos nacionais defrontados precisamente por aquilo que os constitui epistemologicamente: qual é depositário do título de naçom política.
O projeto historiográfico galego moderno surgiu num momento, o século xix, em que a história do nacionalismo adversário começava já a ser naturalizada polas classes letradas do país. Nom só nos seus marcos fundamentais, mas também nas propostas de divisom cronológica —reinados, governos, correntes intelectuais…—, no rol concedido aos Estados vizinhos ou na consideraçom que mereciam os adversários nacionais interiores. Com o assentamento do ensino estatal, este leque de conhecimentos foi incorporado no total da populaçom através da escola, jogando um papel constitutivo na socializaçom historiográfica das maiorias galegas.
Uma parte mui comprida dos conhecimentos e ferramentas históricas da nossa populaçom procede dos programas de ensino estatal, e isto dificultou e ainda dificulta enormemente a criaçom e difusom de um relato nacional galego alternativo. Se as versons dos feitos colidirem diretamente, a versom estatal resultará mais digna de crédito, pois a quantidade de fontes através de que é conhecida –matérias escolares, ficçons históricas, documentários, conversas pessoais, alocuçons políticas, telejornais, ditos sapienciais etc.– conferem-lhe uma aura de indubitabilidade. E ali onde a interpretaçom dos feitos nom é conflituosa entre ambos os relatos, quem lê provavelmente tenderá a considerar o galego como manifestaçom local do espanhol, pois acha este último como a escala neutra do acontecer histórico.
Assim, a história galega viu-se obrigada desde as suas origens a se constituir de forma duplamente dialógica. Por um lado, deve negar, emendar e extrair o relato dominante da sua proposta alternativa; mas este gesto de subtraçom termina incluindo o relato espanhol de forma especular. Toda história galega deve refletir em profundidade sobre o que fazer com a história espanhola, embora tente furtar do olhar público esse raciocínio. Por outro lado, e sendo que um discurso histórico deve levar em conta as caraterísticas da sua demografia recetora, tem também de fornecer os médios para que a possível leitora poda transitar desde o seu repertório de saberes para um âmbito mui distinto —o galego. O novo relato tem de ser, portanto, sequer reconhecível desde o oficial espanhol.
Esse problema, relacionado com o horizonte de expectativa da populaçom galego, vê-se agravado por um outro de ordem mais profunda. As ferramentas metodológicas da historiografia nacional estám confecionadas à medida dos Estados-naçom decimonónicos, o que ocasiona inúmeras complicaçons a quem tenta operar por baixo desse nível. O modelo tradicional da história nacional, por exemplo, tende a despolemizar as suas oposiçons internas (jacobinos/girondinos, liberais/carlistas, bolcheviques/mencheviques, etc.) por estarem comungadas através da categoria da naçom. Uns e outros som, antes do que tudo, franceses, espanhóis e russos. Por isso, o Estado-naçom pode ocultar o seu próprio nation-building para se apresentar como eterno, e subtrair da memoria ou naturalizar a violência homogeneizadora de que precisou o seu estabelecimento —o que Ernst Renan chamara, acaidamente, comunidade de esquecimento. O conflito nacional, no entanto, nom pode ser desideologizado tam facilmente, porque atinge a própria constituiçom do instrumento metodológico. A escrita duma história sem Estado implica a postulaçom de uma unidade nacional onde o Estado existente nom a reconhece, o que constitui um posicionamento marcado e uma prova pública de suspeitoso engajamento político.

Mas a história da naçom sem Estado é sempre a história da sua oposiçom ao Estado-naçom. Carente de política exterior, de um governo autónomo e de uma esfera pública própria, a sua agência parece limitada exclusivamente ao conflito nacional, arredor do qual organiza a sua dispositio básica. Como o público alvo conta já com uma série de presuposiçons sobre o que deve ser, por exemplo, um “século XVIII” normativo, o equivalente galego aparece como pouco denso em acontecimentos, secundário em relaçom a uma outra história sentida como verdadeiramente importante.
Por causa disto, desde o momento datável em que a naçom sen Estado perde a autonomia política, o relato historiográfico tem de complementar os episódios centrais de conflito nacional com outros que funcionem de forma supletiva: a vida quotidiana, a receçom de vagas estéticas ou filosóficas, a história literária, a geologia ou, mui enfaticamente no caso galego, a história agrária e a antropologia. O resultado é, em palavras de Vázquez Souza (2019. A Galiza como tarefa. Textos em “A viagem dos Argonautas”, 26), uma “História fragmentar […], que é a própria das culturas resistentes às quais dalgum jeito se negou a capacidade de narrar como conjunto estruturado a própria história”.
Esse carácter agónico da narraçom histórica galega traslada à própria classe intelectual as suas tensons internas; pois, como foi já mencionado, exige de posicionamentos ideológicos ineludíveis. A existência de projetos opostos dentro das produtoras galegas de discursos históricos dificultárom tradicionalmente chegar a consensos que, noutros contextos nacionais, constituiriam aprioris do debate e nom o seu tema principal. A falta de acordo sobre se a Galiza é uma naçom, que tipo de naçom é e que soberania lhe corresponde parece, na nossa esfera pública, uma discussom natural. Mas é incomum em enclaves onde um nacionalismo sim tivo sucesso e, por tanto, puido socializar a sua memória de maneira efetiva.
As historiadoras galegas do período autonómico continuam marcadas polo conflito nacional em decurso, embora as dinâmicas de cooptaçom e reproduçom da Galiza autonómica tendam a projetar os perfis menos críticos com o mantimento da Galiza como Comunidade Autónoma no Estado e mais favoráveis restringir o seu caráter nacional ao plano cultural. Ao longo prazo, a seleçom de historiadoras menos engajadas para os postos de maior capital simbólico acaba orientando o espaço das possibilidades historiográficas: dificulta a pesquisa académica comprometida, incentiva o consenso por cima do dissenso e impede que as propostas mais conflituosas poidam reproduzir-se e banalizar-se por simples repetiçom —que é o que acontece com os lugares comuns da memória nacional espanhola. O que aliás explica, seguindo a Saavedra Vázquez (2016, “A realidade política de Galicia nos Séculos Escuros”, en Historia das historias de Galicia, 14), o desinteresse académico após a Transiçom pola história política galega. Nom só a visom oficialista está mais presente em postos de maior reconhecimento social e científico, senom que é capaz de reunir unha maior carga probatória: é capaz de sobrerrepresentar determinadas focagens e fenómenos, aceder a melhor financiamento e contar com um muito maior capital humano. Aos poucos, hegemoniza o sentido comum do historicamente válido e impede à populaçom reconhecer-se em narraçons unilaterais.
A historiografia de base nacional parece hoje às especialistas uma subdisciplina obsoleta. A queda da popularidade dessa metodologia, por outro lado tam justamente criticada, também nom apoia o projeto de constituirmos uma história galega epistemicamente independente. Mas a sua eficácia social e a sua importância no currículo do ensino secundário obrigatório apontam noutra direçom: a história nacional(ista) é a mais consumida fora dos circuitos universitários, e alinha o seu referente político com os Estados-naçom já existentes. As tentativas de criar um relato galego autónomo durante estes cinquenta anos que vám dos inícios da Transiçom até os nossos dias tenhem deitado contributos académicos e divulgativos de enorme solidez. E, porém, o seu propósito social continua a falhar; a experiência prova que som incapazes de competir com o seu equivalente espanhol, reproduzido em todos os âmbitos da vida e do saber. Se calhar, as dificuldades epistemológicas e práticas que fum recompilando neste artigo sirvam para mostrar que nom se trata tanto de um fracasso circunstancial, mas duma impossibilidade estrutural. Estas últimas palavras nom quereriam ser, porém, uma invocaçom ao pessimismo; ao contrário, procuram reincidir na necessária conexom entre teoria e açom no contexto galego. Uma teoria que também seja teoria crítica, e que encontre na independência política a possibilidade de se realizar, pode iluminar um caminho que é tam difícil como certo.
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