Neste texto, Pablo Pesado concebe a nação como um processo histórico em contínua construção. Critica tanto a noção acrítica de classe que dilui o nacional quanto as visões essencialistas que o encerram no passado. Propõe pensá-la a partir de Adorno: aberto ao futuro e à sua própria negação, mas contrário tanto à reificação identitária quanto à sua dissolução num proletariado abstrato.
A já mais que demediada década de 2020 está a conhecer, no espaço do Estado espanhol e não só, uma aparente desdramatização do conflito nacional interno, em parte por dinâmicas intrínsecas aos âmbitos eleitoral e parlamentar, mas também por outros processos de maior profundidade. Por um lado, assistimos ao contágio de posições xenófobas e antimigratórias em faixas dos nacionalismos subestatais, no que parece a tentação de pagar com um inimigo mais fraco a derrota frente ao Estado na década anterior. Por outro, estão a retornar com fortaleza formas de compreensão do capitalismo que não contêm espaços teoréticos para a dominação nacional, e que pretendendo fazer da classe o único lugar para a práxis podem acabar deixando ao seu passo grandes desertos de vida e história social virgens de pensamento e ação. Ainda que ambos fenómenos são muito dissímeis —o primeiro, um perigo interno; o segundo, uma crítica externa— configuram juntamente um cenário que permite e talvez exige uma reformulação teórica. Este artigo visa refletir sobre como deveria declinar-se hoje a palavra nacional para uma teoria que queira acompanhar uma práxis transformadora. O que desenvolverei a seguir não contém uma indicação precisa do que esta teoria-práxis deva ser —esforço que demanda tempos cumpridos e protagonismos coletivos—; apenas aproveita a conjuntura para refletir sobre qual lugar deveria ocupar a Galiza e, sobretudo, qual noção concreta da Galiza, nessa teorização.
Resistência e individuação
Se o plano nacional ainda retém parte do seu velho protagonismo hoje é porque continua a ser o repositório de experiências de dominação passadas e também presentes. Para que tal protagonismo seja benfeitor, eis a tese deste artigo, o nacional deve ser fiel a essa natureza e manter-se tensionado, disforme, inessencial e negativo. Nação, e aqui falarei apenas da nação dominada, seria assim o nome que damos a um determinado plano de resistência —John Hutchinson preferiu falar de Nations as Zones of Conflict (2004). Tratar-se-ia de espaços em que se territorializam os traumas e contestações coletivas às tentativas de homogeneizar as populações por parte dos Estados contemporâneos, convertendo-as em cidadanias abstratas compostas de indivíduos equivalentes como mercadorias. Nas fases quentes, esses processos comportam violência física, deslocamento de populações, substituição linguística e cultural. Nos momentos mais frios —que assinalam o sucesso dos quentes—, implicam um mantimento banal da identidade nacional dominante através da sua omnipresença pública —da escola aos desportos—, o qual não implica que a violência não poda ser reativada se necessário.
A nação dominada não é uma unidade preexistente a esse processo de dominação —lugar comum que, embora assumido pola antropologia contemporânea e os estudos sobre nacionalismo, não chega a permear nos movimentos nacionais. Os atributos com que nos vestimos como nação nunca nos pertencem de tudo. As festividades populares são habitualmente partilhadas por enormes continua antropológicos, quando não por todas as sociedades agrárias humanas. O relato popular que um ainda pode ouvir da boca de uma pessoa idosa da família foi recolhido muitas vezes em culturas longínquas e, amiúde, etiquetado e indexado em grandes corpora de cultura popular. O nosso Rexurdimento é a Renascença catalã e também é o Risorgimento italiano. A procura na cultura nacional de uma unicidade radical é estéril.
O facto anterior é amiúde aduzido como um argumento em contra dos nacionalismos sem Estado. Entendido como crítica e não como fortaleza é errado, mas as consequências de tentar contestá-la através da inversão —demonstrando provatoriamente a existência da nação à la Castelao— podem ser ainda mais daninhas. Que as nações não constituam entidades culturais essencialmente diferenciadas não implica serem ficções, bem que decerto sejam abstrações. Aquela é uma interpretação empobrecedora, mas comum, do dito por Benedict Anderson no Imagined Communities (1983) há já quase meio século. O que fai de uma nação uma entidade positiva não é a exclusividade dos seus repertórios culturais, mas a congregação destes em torno a um processo de resistência política que é, este sim, local, histórico e único em si próprio. Uma nação subalterna é, neste sentido, a congregação e mobilização de conteúdos potencialmente universais em face de uma dominação que tem lugar numa territorialidade e numa historicidade necessariamente concretas. É essa resistência focal a que dá lugar a um genuíno processo de individuação.
Imanência e cisão
A mobilização das categorias da crítica da economia política contra os processos de resistência das nações sem Estado resulta de um mal —às vezes um (mal)intencionado— uso da teoria que descuida o facto anterior. Estou-me a referir ao trecho teórico, morto e redivivo cada geração política, de que o nacionalismo cinde a unidade da classe operária. “Crítica” significa, em “crítica da economia política”, “crítica imanente”: servir-se das categorias que fornece a má sociedade presente para, redirigidas contra ela, obrigá-la a desencadear as potências que também contêm. A subsunção de distintas comunidades humanas incompossíveis entre elas num proletariado abstrato inaugura a possibilidade de este se reconhecer como legítima humanidade contra o capital e arrebatar-lhe o controlo do seu destino. Mas que o segundo facto seja uma consequência desejável do primeiro não indica que o primeiro seja desejável em si. Também não significa que contribuir para a sua abstração torne mais provável que advenha sujeito. Por outras palavras, o aplanamento do proletariado por subtração dá por boa a sua universalidade abstrata em contra dos momentos de individuação radical que subsistem nele.
Se esses momentos continuam é porque a subsunção da vivência humana sob o capital nunca é completa —e por isso é reiniciada constantemente, cada vez com maior profundidade, como mostra Andrés Saenz de Sicilia emSubsumption in Kant, Hegel and Marx. From the Critique of Reason to the Critique of Society (2025). Fraturas nascem uma e outra vez; que o capital necessite utilizá-las fala-nos somente da sua incontornabilidade. A classe é inerentemente cindida, pois é tanto o resultado de processos de homogeneização —quer automáticos quer planificados— como de inevitável individuação. Género, racialidade e nacionalidade são três categorias em que costumamos pensar ao respeito, mas que em absoluto esgotam esse processo que podemos representar-nos, com Moishe Postone, como “esforços para passar além da antinomia, associada à forma social da mercadoria, entre um universalismo homogêneo abstrato e uma forma de particularismo que exclui a universalidade” (Tempo, trabalho e dominação social, 2022: 192). É verdade que essa cisão pode dificultar a imaginação de um sujeito unificado que se erija unívoco contra o capital, mas também que é nessas fraturas onde estão contidas as promessas de um mundo liberado.
Sociogénese e esclerose
Uma tentação que defrontam os movimentos nacionais, especialmente os contemporâneos, é a de confundirem isso que denominei “processos de individuação”, que são dinâmicos, situacionais e contingentes com entidades orgânicas com atributos inerentes. Que num lugar exista uma identificação étnica grupal não pressupõe nem ancestralidade nem posteridade; os processos de etnogénese e sociogénese são constantes na história humana e falam, apenas, da nossa capacidade para formarmos comunidades com que enfrentar os distintos presentes que nos saem ao passo. A exigência de uma clarificação cultural à nação só pode conduzir a uma definição clara à custa de exercer uma enorme violência contra a plural experiência histórica que a constitui e, com frequência, também contra as populações que quer congregar. O resultado desse forçamento, que poderíamos denominar “cultura estatal”, é uma deformação paródica do que os movimentos nacionais verdadeiramente fantasiam.

As posições que vem nas vagas migratórias contemporâneas uma ameaça erram por princípio ao considerarem que há algo autêntico que pode ser ameaçado, quando o que existe é apenas a territorialização individualizada do ato de resistir. A perspetiva fascista de expurgar de um suposto corpo sã aquilo que não encaixa com um ideal nacional só deforma ainda mais a nação, cuja existência se deve precisamente à mesma historicidade mutável que fai as populações irem e virem através do globo. Não há uma Galiza anterior à migração. Isto confirmam-no os estudos migratórios, que a mostram como um milenar local de trânsito. Mas não é necessário apelar aqui a uma realidade empírica. A Galiza é aquilo que surgiu; se continuar a ser algo, será também aquilo que surja do nosso presente, um período histórico que se carateriza pola alta mobilidade da mão de obra entre Estados-nação do globo. A quem chegou e a quem estava lhes pertence um idêntico protagonismo histórico que ninguém poderia, aliás, contornar. A incapacidade de aceitar este feito esclerotiza todo o nervo que os processos de resistência nacional podem ter. Não existe uma questão migratória; o conceito anula qualquer possibilidade de pensamento transformador, pois simula parcelar uma realidade que nunca chegou a estar reunida.
Futuro e negatividade
A decisão de dedicar menos esforços a procurar energia afetiva e solidez identitária no passado habilitaria a possibilidade de pensarmos o nacional em relação prioritária com o futuro. E, nesse sentido, seria esperançador apostarmos por uma compreensão que fosse eminentemente negativa —no sentido com que Theodor W. Adorno reajustou essa ferramenta do instrumental hegeliano: uma que recusasse a tentação de reificar o nacional e que se mantivesse aberta ao seu devir-algo-novo. Diz Ernst Bloch n’O Princípio Esperança: “o chamado reino da liberdade se constitui, por isso, não como retorno, mas como êxodo […] para uma terra sempre apontada, prometida polo processo” (I, 247); não, pois, como reunificação daquilo que foi esgaçado, mas como reterritorialização de (algumas) possibilidades de imaginação revolucionária. Eis a potência da crítica imanente: se bem o nacional é o registo do dano exercido à vida coletiva polos processos de estatalização e subsunção da vida coletiva sob o capital, contém a promessa de novas formas de habitar e fazer significar o território que ainda não podemos vasculhar mas que queremos descobrir.
O mundo polo que lutamos é-nos desconhecido, e a possibilidade de que a própria identidade nacional se dissolva e dê lugar a formas novas de identificação e autodescrição grupal e cultural é esperável e seguramente desejável. Como reação à violência homogeneizadora dos Estados nacionais e à abstração do capital, só tem sentido pensá-la em relação a eles. A nação não perdurará eternamente; talvez se esgote no momento de vitória contra a destruição que lhe impujo a nação dominante, e a sua vitória histórica consista, finalmente, na sua própria anulação. Afirmar a nação é considerar que a única maneira digna de ingressar nessa dissolução é como iguais; a oferta de dissolver-se aqui e agora num proletariado superior, amiúde coincidente com as geografias dos dominadores, constitui apenas uma reafirmação inconsciente do próprio domínio. Para chegar ao futuro são necessárias muitas mediações.