«Brie-on-Arrosa»: As rias e os rios galegos em «Anna Livia Plurabelle»

Alberte Pagán
11/07/2025

Alberte Pagán

O filólogo Alberte Pagán, tradutor dos dous primeiros capítulos de Finnegans Wake ao galego, mergulha-se na prosa fluída de ‘Anna Livia Plurabelle’, o seu capítulo mais famoso, para trazer à tona dúzias de hidrónimos galegos nunca antes identificados.

Finnegans Wake (James Joyce, 1939) é quiçá o romance mais revolucionário, formal e politicamente, da história da literatura. Está escrito num inglês inçado de vocábulos de dúzias de línguas e retorcido em contínuos jogos de palavras. Como exemplo tomemos a palavra com a que começa, «riverrun», que resulta da uniom de «river» com «run» mas que soa como o francês «riverain» e inclui no seu interior o verbo «err» e o topónimo «Iver». É dizer, num só termo conjugam-se os significados «rio», «curso», «errar» e «ribeirinho», ademais dos múltiplos significados de cada lexema («run»= «correr», «navegar», «fluir», «desembocar», «fuga», «corrida»…) e da referência geográfica. Durante a leitura de Finnegans Wake cada persoa seguirá umha das vias semânticas oferecidas, dependendo dos seus conhecimentos linguísticos, idiomáticos, históricos, geográficos e, no caso que nos ocupa, fluviais. Umha galega identificará o verbo «ver» no meio de «riverrun», um neerlandês entenderá as mesmas letras como o advérbio «ver» («longe») e umha alemá como o prefixo «ver-», entanto um francês poderá ler os homófonos «ver» («verme»), «vers» («cara a») e «verre» («vidro»). Todos estes lexemas estám contidos na palavra, fosse o autor consciente de todos eles ou nom. O processo de leitura implica umha escolha semântica. Nom existe umha leitura fixa de Finnegans Wake, de igual modo que nom som possíveis duas leituras iguais, ainda por parte do mesmo indivíduo. Todas as interpretaçons som válidas. A leitura nom deixa de ser um exercício divertido, tanto como encontrar o rio Tea ao interior do nome da localidade que atravessa, Ponteareias.

«Brie-on-Arrosa» é outro bom exemplo de estudo: «Brie» é um queijo da regiom homónima da França, mas «bri», em topónimos irlandeses, significa «outeiro»; a preposiçom «on» equivale ao nosso «Riba de» (como em Riba d’Eu) para indicar a localizaçom fluvial dumha vila; «Arròs» é um rio occitano; «rosa» é nome de flor em galego; «arroser» é «regar» em francês. «Brie-on» (além de sugerir a localidade santiaguesa de Briom) invoca o clarete de Bordéus Chateau Haut Brion, é dizer, a frase pode-se ler como «Brion rosé». Podemos estirar a interpretaçom e desenterrar outros muitos lexemas, como «narro» ou «narraçom» e «arroz» («arròs» em catalám). Um estudioso irlandês como Brendan O Hehir (A Gaelic Lexicon for Finnegans Wake, 1967) encontra o substrato gaélico Bríán a’ Rosa («Pequena Encosta da Floresta»). Mas umha persoa galega nom pode deixar de ver no sintagma a Ria de Arouça [Arosa], referência clara, lógica e coerente com o contido do capítulo no que se insere. Como escreve Mink, «fagam as suas escolhas».

O capítulo oitavo do primeiro livro de Finnegans Wake é o seu fragmento mais conhecido e traduzido. Foi publicado em 1928 sob o título Anna Livia Plurabelle, com umha extensom de 61 páginas. «Anna Livia Prurabelle», que toma o nome da personagem feminina, esposa de Earwicker e mae de Shaun, Shem e Issy, recolhe a conversa entre duas lavandeiras a ambas beiras do rio Liffey (Anna Liffey ou An Life em irlandês, que se identifica com a própria Anna Livia). As duas mulheres indagam sobre o passado de Anna Livia e o seu esposo, seguindo o percurso do rio desde o nascimento até à desembocadura. Com o cair da noite umha se converte em pedra (simbolizando Shaun) e outra em árvore (Shem, ou seja James, trasunto de Joyce). As três primeiras linhas estám distribuídas em forma de delta, símbolo de Anna Livia: o capítulo é o rio e o rio é a protagonista. Anna é a afirmaçom da vida após a morte do seu marido. O rio, que erode a pedra, é dizer, as verdades patriarcais imutáveis, é imortal: ao morrer converte-se em nuvem para seguir alimentando as suas fontes num eterno retorno. Neste senso o capítulo é espelho da narrativa circular do romance, que remata no meio dumha oraçom para retornar ao primeiro capítulo («ao longo do / rio») num recorrente ciclo viconiano.

A prosa de «Anna Livia Prurabelle» é fluida como rio. «Acho que se move», escreveu Joyce a Harriet Shaw Weaver (em carta do 28 outubro de 1927), após introduzir no texto «centos de nomes de rios», reais, mitológicos e literários. Padraic Colum, no seu prefácio à publicaçom de 1928, fala de “mais de quinhentos”. Louis O. Mink (A Finnegans Wake Gazetteer, 1978) regista 980 hidrónimos, algo mais que os 800 que recolhe a tese doutoral de Fred Higginson (James Joyce’s Revisions of Finnegans Wake: A Study of the Published Versions, 1953) na que se baseia. Roland McHugh (Annotations to Finnegans Wake Revised Edition, 1991) amplia esta informaçom e constata 991 referências, ainda que nom únicas (existem repetiçons). Raphael Stepon (Finnegans Wake Extensible Elucidation Treasury) contabiliza 1117 apariçons (tamém com repetiçons), o que equivale a mais de um rio por linha ou 43 por cada umha das 27 páginas.

Era consciente Joyce da presença destes mais de mil rios no seu texto? A resposta é obviamente nom. Estamos daquela a sobreinterpretar? Nom necessariamente. O que acontece é que o escritor irlandês estercou o terreno para que as sementes por el plantadas cresceram, mas com elas brotárom outras ervas nom previstas. A sua é umha espécie de literatura generativa na que podemos ler nomes que o escritor desconhece. Encontramos palavras comuns («went», «spring») que coincidem com nomes de rios (o Went em Inglaterra, vários rios Spring nos EUA, Alemanha e Roménia), além de palavras que por pronúncia ou grafia remetem a hidrónimos insuspeitados. Mas esta é umha consequência buscada por Joyce, como demostra a seguinte declaraçom recolhida por Max Eastman (The Literary Mind, 1931): «gostava de pensar que um dia mui distante, alá no Tibete ou Somaliland, algum raparigo ou rapariga ao ler o livrinho ficaria contente ao tropeçar com o nome do rio da sua aldeia.» 

Mink adjudica 27 rios do seu listado à Península Ibérica: Ebro, Douro, Tejo («Tagus»), Tinto, Xúquer («Jukar»), Guadalquivir («gaudyquiviry») e outros menores. De entre eles, seis correspondem à Galiza: Minho (“minneho»), Tambre (“tambre»), Ulha [Ulla] («Gullaway», «nullah» e «Ulla», escrito com minúscula no Restored Finnegans Wake), Ria de Viveiro [Vivero] («vivers»), Marchám [Marchan] («marchantman») e Noia [Noya] («Fountainoy»). Mink localiza Noya em Espanha e Chrisp identifica-o com o rio catalám Anoia, mas bem poderia ser umha alusom à Ria de Noia. Mink menciona tanto o rio Marchan como o March (nome alemán do Morava). McHugh desbota este último. A adscriçom do Marchan à Galiza (quiçá devida a umha errata original de Higginson) é problemática, porque existe um rio Marchant na Patagónia chilena de bastante maior importância que o cativo Rego de Marchám de Ribeira de Piquim. (Mas a moça que leia Finnegans Wake desde essas terras de Meira ficará bem feliz de descobrir o rio da sua aldeia na obra de Joyce.) Stepon recompila a informaçom publicada com anterioridade e nomeia mais de mil rios, mas, como McHugh, nom os situa geograficamente, cousa que si fai Peter Chrisp (From Swerve of Shore to Bend of Bay), que posiciona 25 na Península Ibérica e adscreve quatro deles à Galiza: Minho, Tambre, Ulha, ria de Viveiro e Marchám.

A persoa que leia «Anna Livia Plurabelle» desde o país dos mil rios poderá escoitar correr a água de mais de meia centena de cursos fluviais galegos. Os listados citados reconhecem alguns rios forâneos que tenhem correspondência fonética na Galiza: Lea («leada», «leandros», «Clean»), rio inglês com equivalência galega; Nera («nera»), rio italiano com pronúncia similar ao nosso Neira; Corda («cordial»), no Brasil, no que tamém cabe o galego Rego da Corda; todos os americanos rios Grande («Grande», «grandeur»), que nom nos fam esquecer o rio Grande de Camarinhas ou o do Barbança; Loira («boudeloire»), que pode ser tanto o rio francês como o do Morraço, ou mesmo os vários Louro da nossa geografia; o angolano Lomba («lomba»), homófono do nosso rio da Lomba, no Salnés; o rio europeu Saar [Sarre] («Saara»), que inclui na sua grafia o nosso Saá, tamém identificável em «saale» e «Saas»; Sihl («sihl»), na Suíça, no que nom podemos deixar de escoitar o galego Sil (que tem outras apariçons em «silk» e «siligirl»); Bravo («Bravo»), que no Baixo Minho se reduz ao regato dos Bravos; e o já citado Douro, que tamém pode ser o rio homónimo betanceiro e incorpora o Ouro marinhám. Há outros muitos rios que nenhum listado recolhe. A ausência mais surpreendente é umha óbvia Ria de Arouça («Brie-on-Arrosa»), já mencionada, que nom é rio mas bem se pode unir às outras duas rias mencionadas, Viveiro e Noia, para formar um pequeno grupo de corpos aquáticos nos que a água doce se converte em mar.

Na literatura fluida de «Anna Livia Plurabelle» podemos encontrar, com maior ou menor certeza, os seguintes rios e regos galegos: Abelhas [Abellas] («Plurabelle»), Acheiro («anacheronistic»), Ancha («romanche»), Arcos («parco»), Artes («artesaned»), Búbal ou Buble («buboes», «Bubye», «Babbel»), rio das Fragas ou rego da Fraga («fraguant»), Lavandeira («lavandier»), Lonia («colonial»), Magros («Magrath’s»), rego de Ogas («Oga»), Sónhora («sonora»), rio do Sisto («Sister»), Tines («tibertine’s», compartindo palavra com o Tibre), e Val («Val»).

Quando o hidrónimo tem entre duas e quatro letras o assombroso seria que nom topasse acobilho na verbosidade da prosa joyceana. O exemplo mais extremo é o do rio Te, cujas duas letras aparecem em 231 palavras do capítulo. De feito, é o primeiro curso fluvial em nascer no texto, no «Tell me» inicial. O rio de Va brota em 32 palavras. Tropeçamos com o rio Eu em 12 ocasions («Euclid», «eure»), mais outras cinco com a grafia Eo; e com o Cal em 16 casos. O Mau surge em «maure» e «mauves». Encontramos o rio Cans em «can see»; o Ceia [Cea] em «fierceas», «Oceans» e «Deataceas»; o rio do Com [Con] em «Congoswood», «Conditor», «Conway», «Concord» ou «come»; na frase «Conn tween Cunn and Collin» convivem o rio do Com com o Colim; o Deu surge em «grandeur»; o Edo em «Bedouix» e «rumbledown»; o Isso [Iso] em «Maisons», «Kisokushk», «poison», «Isolabella» e «pison»; o Lor em «Flora», «Bachelor», «Lord», «loreley» e «salor»; o Mau em «mauldrin» e «maure»; o Oca em «Ovoca» e «local»; o rio de Ola em «Olaph»; o de Pol em «Polistaman» e «pollynooties»; o Sar em «hussars», «sar» e «Saara»; o Ser em «Anser» e «weser»; o Sor em «sort» e «sore»; o Tea em «plateau», «teasing», «Teague» ou «tears»; o Uma em «Seumas», «creakorheuman», «strumans», «aestumation» e «aringarouma»; o Vaa em «vaal»; o Além [Alén] em «Magdalena», no que tamém reconhecemos o rio Madanela; o Grou em «ground» e «growth»; o Avia em «Aviary»; o Mera em «merrier»; o Bois em «bundukiboi» e «buboes»; o Brea em «shinkobread», «Breathe» ou «bread»; o Cabe em «McCabe»; o Deva em «Devil», «devious» ou «devide»; o Eume em «Seumas» e «creakorheuman»; o regato Ilho [Illo] em «willow», «pillow» e «guillotine»; o Lonha [Loña] em «Olona»; o rio do Mesom em «Maisons»; o da Barra em «embarras»; o de Moia em «meanacuminamoyas»; o Lónia em «colonial»; o rego da Agra em «Magrath»; e o de Abol em «diabolo».

Que cada leitora se submerja nas águas de «Anna Livia Plurabelle», desbote as sugestons mais febles das acima propostas, aceite as mais convincentes e encontre novos hidrónimos nas suas páginas; mas acima de tudo que nom deixe escapar o nome do regato da sua aldeia, porque com certeza poderá encontrá-lo na prosa globalizada de Joyce.