Oferecendo um percorrido pessoal da evoluçom da casa labrega própria, a Maria Osório historiza os processos de desertizaçom e desprestígio do mundo agrário galego nos séculos XX e XXI, apontando para um ciclo presente ciente dos vícios do mito desarrollista
Esta poderia ser a história de qualquer umha de nós. Muitas tivemos aldeia, muitas tivemos bisavós, muitas tivemos avós, muitas tivemos umha mãe e um pai. Gostaria de ser umha história colectiva. Tentarei nom ficar no retrato pessoal de umha luta amarga e a contratempo. E tratarei de nom atender só à desesperança e à dor: em cada geraçom, em cada confronto, em cada porta aberta, sempre há esperança.
As bisavós
A única memória que tenho de meu bisavô Antonio, que podo considerar como o «fundador» mais próximo a mim desta casa que hoje habito, é detrás da cozinha da casa da minha tia Antonia. Acabou ali os seus dias, na vila, depois de passar a vida na aldeia trabalhando de labrego. Outra das suas imagens aparece-me numha fotografia junto ao meu avô sujeitando um boi ruivo. As minhas memórias dele e das cousas que aconteciam nesta casa quando ele vivia devo-lhas a meu pai, a minha tia e mormente às lembranças daqueles tempos que de vez em vez som trazidas na cozinha.
A casa nom tinha muito a ver com o que hoje é, e isso também se pode adivinhar polas fotos. A conceçom dos espaços daquela altura, em contraste com a que temos agora, mudou completamente. E essa mudança tivo muito a ver com a entrada maciça do capital nas aldeias e também na vida e na mente das pessoas que as compunham. Defende Jaime Izquierdo em La casa de mi padre (2020) que o conhecimento camponês é de tipo holístico, tecnológico, oral e empírico. Este saber era adquirido através da família e comportava umha visom integral e integrada, para além de complexa e funcional, do espaço. Por isso a casa era o centro da organizaçom: a corte dos animais ficava mais perto e depois o resto do local estava traçado em funçom das necessidades e orientaçons produtivas.
A formaçom camponesa nom incluía somente saberes precisos para o trabalho agrário, mas também a aquisiçom de técnicas de artesanato. Parte dos móveis que ainda conservamos nesta casa procedem desta época e devem-se ao facto dehaver carpinteiros na casa. Autosuficiência e mestria podem ser duas palavras definitórias. Nestes momentos (década de 40–50) existia umha sociedade labrega viva, onde a funcionalidade organizativa marcava as tarefas da casa e as funçons de cada membro nela. Ali, o território era pensado como umha parte mais. Por isso era integrava, trabalhado e aproveitado.
A diversificaçom de animais no rebanho (que com os anos foi desaparecendo pola especializaçom à qual foi submetido o agro galego) também permitiu outro dos ofícios que estas paredes velhas virom passar. Muitas vezes tem falado minha tia Antonia de quando levavam as cabras e as vacas ao monte, onde também podia acudir a vizinhança e onde reinava a lei, nom isenta de problemas, da comunidade camponesa. Existia umha diversidade de usos e de rebanhos. Nesta casa havia cabras e ovelhas; hoje só vacas. Havia aproveitamento de parcelas marginais e de monte; hoje, maiormente, pastagens.

A escolarizaçom quase inexistente e o afastamento das administraçons e da representaçom do Estado marcavam as «relaçons exteriores» daqueles núcleos (aldeias e famílias) da comarca dos Ancares. As feiras eram o lugar de comércio e também da socializaçom. O terreiro da igreja paroquial funcionava de jeito parecido. Mas para além disto as histórias de cozinha que lembro falam de umha sociedade viva em muitos mais níveis do que a atual: gente nas casas, gente nos caminhos, gente nas feiras, gente no dia da malhega… Na maioria dos casos, as penúrias procediam da dureza de um trabalho impulsado apenas polas forças animal e humana. Eram comuns os grandes deslocamentos a pé e as mortes prematuras por falta de atençom sanitária. As alegrias vinham do trabalho comunal e do sucesso e sona da casa familiar polo correto comportamento de todas as integrantes. Existia um código labrego de funcionamento.
A montanha e o rural galego nom implicavam, contra o que se pensa, isolamento. A primeira mocidade dos meus bisavôs decorreu nos anos do agrarismo, se calhar a mobilizaçom de massas mais ampla da Galiza contemporânea. Quando meu bisavô tinha vinte três anos, durante a ditadura de Primo de Rivera, avançava rapidamente a redençom foral. Na sua adolescência, na vizinha Fonsagrada, publicava-se o jornal monolíngue O Tio Pepe, que seguia o ronsel do clássico ourensano O Tio Marcos d’A Portela. Quando meu bisavô tinha trinta e três anos, a Bezerreá chegara já a movimentaçom massiva da Segunda República Espanhola, e em 1936 governava um alcalde progressista que foi executado, junto ao seu sobrinho, no mês de setembro.
As avós
Considero que o meu avô fijo parte de umha das últimas geraçons labregas galegas «exclusivamente labrega». Depois dele o neoliberalismo já entrou de maneira mais marcada nas casas, nos saberes e na maneira de agir das comunidades camponesas. Tenho muitíssimas memórias dele e um carinho mui profundo pola sua figura. O que mais destacaria é o mantimento desse saber holístico labrego-indígena misturado com a tentaçom de avançar através das tecnologias agrárias introduzidas polo capital.
Meu avô nom foi escolarizado. Porém, mantinha intacto aquele saber totalizante que lhe permitia ser alguém dentro dacomunidade: atendia com solvência partos de vacas, tinha conhecimentos de ferreiro, fazia navalhas, controlava os ciclos da natureza, tinha um grande interesse polos pomares e pola produçom de sidra. Raramente saía para a cidade, se nom fosse por doença; nunca foi de férias nem fijo viagens longas.
Também nom devemos esquecer a história das mulheres labregas. Minha avó foi escolarizada; mas nom foi titular da granja como era meu avô, apesar de estarem na casa dela. Foi enviada para Bezerreá a aprender a coser. Atendia o gado nos momentos de pastoreio como labor principal, por cima das tarefas da casa. Na maioria dos casos, as principais decisons eram tomadas polos labregos, e as mulheres faziam por tanto trabalhos considerados auxiliares. Som histórias de invisibilizaçom e de falta de poder real (possivelmente umha das caras mais amargas do nosso agro).
Na etapa dos meus avós definitivamente começou a desterrar-se o rebanho misto das casas, optando principalmente (aomenos nesta zona dos Ancares) pola produçom bovina para carne. As subvençons trazidas e pensadas desde Europa marcárom esse ritmo. A producçom de xatos no fim dos anos noventa e a ajuda económica associada comportárom um estímulo importante. Isso permitiu acometerem melhoras nas casas, introduzirem mudanças mecânicas (novos tratores e apeiros) e criarem a ilusom de um crescimento e de um progresso permanentes. Era a época, umha vez eliminada essa vida pastoril e silvicultora, das plantaçons maciças de pinheiros amparadas pola administraçom franquista e assim gerida até hoje. Rota a relaçom simbiótica casa-espaço, nada voltaria a ser como no passado. Os avanços tecnológicos da etapa também contemplárom a introduçom de abonos químicos e fitossanitários que inicialmente permitírom um aumento na produçom de forragem. Era a primeira vez que um curto-prazismo tam marcado se instalava no nosso âmbito.
Apesar do mencionado, ainda hoje convivem as melhorias tecnológicas com os modos de vida e as estruturas físicasherdadas da anterior etapa. Fôrom modificadas e ampliadas as cortes para os xatos: ainda lembro estarem nos baixos da casa. Comprou-se um tractor, embora ainda se acolassem patacas à mão ou se aparelhassem vacas para trabalhar.
Nos palheiros dormiam fugidos, que contavam com umha rede de solidariedade grande entre a classe labrega da que eles próprios faziam parte. As casas começárom o seu declínio e no processo a comunidade foi perdendo membros: emigraçom e nula valorizaçom da produçom labrega som dous dos eixos principais que explicam esta sangria, e vam unidos. A elevada precarizaçom e a descapitalizaçom das casas camponesas por causa do capitalismo e o aumento do nível de vida impede a profissionalizaçom total do sector e das integrantes da família. Daqui também a enorme quantidade de emprego feminino submergido e invisível. Nesta época é quando a emigraçom ancaresa, que tivera como destinos prediletos a Catalunha e o País Basco, começa a dirigir-se às cidades galegas na procura de maior ventura económica. Digamos que é o princípio do fim.
As cidades galegas engrossavam os seus arrabaldes obreiros com as crianças da migraçom labrega, reconvertida agora emoperária; estas geraçons iam nutrir desde os anos 60 as organizaçons de oposiçom à ditadura e, nomeadamente, o movimento nacional-popular. Este, nascido no mundo urbano, chegaria ao agro através de pessoas jovens: técnicas, labregas ilustradas e filhas de labregas já alfabetizadas. Nessa jeira tam dinâmica, onde os frutos do crescimento e da industrializaçom produziam efeitos ambíguos (maior riqueza, mas também maior desarraigamento), volta a esperança política que se perdera em 1936.
As mães.
O caminho que se entreabria graças à geraçom anterior, fortalece-se e instala-se definitivamente nas casas labregas com o desenvolvimento da Política Agrícola Comum (PAC) e com os planos de desenvolvimento e crescimento desenhados desde as administraçons espanholas. Paralelamente, a motorizaçom permite maior mobilidade e a apariçom de um vínculo desigual com o mundo urbano que chega até o presente.
No ano 1996, meu pai incorpora-se à granja e começa a obra da que seria a nova corte, já fora dos baixos da casa e separada fisicamente da mesma. Melhorias nas infraestruturas e no nível técnico caracterizam esta etapa. O velho modelo de exploraçom familiar consegue sobreviver e as labregas que gerenciam estas granjas protagonizam tratoradas e lutas(final da década de 80, estendendo-se até a de 90) para tentar revalorizar a sua produçom e chamar a atençom sobre a perda de poder aquisitivo.
A especializaçom bovina e o desterro dos rebanhos mistos parecem também revigorar-se nesta etapa. Em paralelo, começam a se introduzir mudanças no manejo tradicional de semiestabulaçom que estivera implantado (no mínimo na minha zona). A necessidade de ter mais gado e a falta de um número mais elevado de mão de obra obriga a umha extensificaçom da produçom. Começa a aceitar-se a ideia de que a maximizaçom reverterá num aumento de ingressos. Também se assenta a ideia do progresso e, apesar de que o poder adquisitivo das unidades labregas nom deixa de descer e de que a míngua populacional compromete o relevo humano, confia-se na injecçom de dinheiro público para robustecer o sector.
Presente
Chegamos até as portas da minha pequena história pessoal. Tal e como descrevim, herdo a granja familiar pola parte do meu pai. Com o barulho de fundo da seca e da mudança climática, enfrento-me praticamente em solitário ao trabalho e às incertas décadas que estám por vir. Em cima da mesa estám muitas questons. Decido passar à produçom em ecológico e introduzir animais novos que, acho, se adaptarám melhor a esse cenário. As pessoas activas no sector defrontam os mesmos problemas: desvalorizaçom e descapitalizaçom, produçom por baixo de custo e cortes nas ajudas. Isto afetará de maneira direta muitas granjas que têm umha maior dependência de insumos: os preços dos cereais e do gasóleo estám disparados. O pluriemprego instala-se no sector e a cada passo há menos labregas sem outro emprego fora da exploraçom. O capitalismo ameaça converter a profissom num passatempo ou num luxo.
Europa fala de umha nova «revoluçom verde». As novas diretrizes da PAC advertem da proibiçom do uso de fertilizantes sintéticos e apregoam a proteçom da produçom pequena e familiar. Enquanto as macroempresas da alimentaçom nom sofrem nem o mínimo rabunho, as famílias mais prósperas do Estado Espanhol continuam recebendo suculentas somas de dinheiro da PAC e a lei da cadeia alimentar continua sem se cumprir.
Na montanha post-pandemia, na Europa do confronto bélico e do processo inflacionário, novos perfis migratórios amortecem o devalo demográfico. Europeias e ocidentais em geral de classe média alta, valorizando a riqueza natural galega para viverem em ecológico, vam comprando as propriedades. O proletariado do «Terceiro Mundo» (de procedência romena, colombiana e marroquina) ocupam os postos de trabalho que os autóctones nom desenvolvem já.
Este é o pano de fundo e o contexto incerto com o que contamos. Um rural desertizado e sem gente, ameaçado polo grande capital, a acumulaçom do território e a ameaça de expulsom. Umha administraçom culpável. Um contexto político internacional incerto, mas perigoso para a produçom de alimentos. Porém, sabedoras de que o nosso sector tivo grande capacidade de adaptaçom aos tempos, e de que foi capaz de salvaguardar a sua essência, confiamos em que assim seja no futuro. Nom sabemos exatamente a que futuro estamos a dar a mão, mas sim sabemos quem no-la deu antes a nós. Essa será a melhor garantia para enfrentarmos o que virá.