Arqueologia do feísmo

Andrés Currás

O arqueólogo Andrés Currás analisa criticamente as diversas teorias sobre o chamado “feísmo” galego que têm surgido nas últimas décadas, nomeadamente as que o reinterpretam como expressão popular face a modelos impostos polas elites. Neste artigo, o autor propõe ainda uma leitura arqueológica que entende o feísmo como marca material do trauma causado pola modernidade capitalista no rural galego.

Son máis galego que o feísmo, e atrévome a dicir que ata máis que o caciquismo som as primeiras frases com as que começa um conhecido tema do grupo Dios Ke Te Crew publicado em 2021. A letra bem pode ser um indicador da aceitaçom que o termo feísmo conseguiu na sociedade galega em tempos recentes. Contudo, pensamos que mais sugeridor é comprovarmos a sua incorporaçom aos elementos definitórios da galeguidade. O consenso sobre este particular pode ser objeto de debate, mas partimos da premissa de que uma parte significativa da povoaçom galega atual tem alguma opiniom sobre o fenómeno e seria mesmo capaz de identificar a sua frequência no território.

Definir o feísmo é uma tarefa complexa que supera o objetivo deste texto. Consideramos que é mui provável o termo ser polissémico, com multiplicidade de significados, mesmo opostos, que resultam de prismas culturais e simbólicos diferentes, algo próprio de sociedades diversas como a galega do s. XXI. Porém, achamos que esta disparidade de opiniom também poderia ser resultado de um insuficiente percorrido da análise científica sobre a questom com capacidade de transcender socialmente.

O termo feísmo, procedente da história da arte, foi sendo progressivamente incorporado à reflexom sobre arquitetura na Galiza desde finais dos anos 60 do s. XX. O seu uso vai proliferando nas décadas seguintes para se consolidar definitivamente nos anos 90, onde já constitui uma referência habitual na imprensa. Estas reflexons constituem uma primeira aproximaçom ao fenómeno e caracterizam-se pela sua visom crítica e de confronto. O tom empregado adoita ser beligerante e mui negativo para a sua valorizaçom, denunciando o que se considera um atentado contra a paisagem, contra o património e contra uma parte das essências do país, denominado nom poucas vezes paraíso. Este ámbito de reflexom centra também a sua crítica na escassez, ausência ou desleixo no seguimento e aplicaçom de normativa sobre ordenaçom territorial e urbanística no país, sem a qual o caos se espalha sem controlo. Este discurso chega bem vivo até os nossos dias, existindo uma abundosa corrente de opiniom que pom ênfase na renegaçom, habitualmente acompanhada de material gráfico, de elementos considerados degradantes da tradiçom patrimonial arquitetónica galega. O debate sobre esta questom tem ganhado muita popularidade nos meios de comunicaçom, desde a imprensa até a televisom pública galega (Chapuzas Gallegas no jornal La voz de Galicia ou Galicia Bonita na TVG seriam exemplos), com consideraçons a continuarem pela senda da explícita denúncia. Este discurso crítico decorre paralelamente à construçom de uma narrativa que introduz elementos de comédia autocrítica e humor autorreferencial que, em perspetiva, nom distam muito da cultivada por outros povos em diversa situaçom de marginalidade ou minorizaçom cultural e política.

Atualmente existe outra corrente de opiniom sobre o feísmo, desenvolvida durante o primeiro quarto do s. XXI, enquadrada no ámbito da arquitetura crítica e que supom uma auténtica renovaçom do aparente consenso estabelecido pelo paradigma anterior. Segundo esta nova aproximaçom, o feísmo deveria ser avaliado partindo da consideraçom sobre o que é a paisagem galega e qual é o significado que esta tem para uma determinada visom e orientaçom do poder por parte das classes dominantes no país. Na conceiçom canónica da paisagem, o estabelecimento dos seus limites conceituais seriam resultado de determinados critérios sócio-políticos, definindo práticas do que é aceitável e do que nom é. O feísmo e o debate ao seu redor seria, desta perspetiva, um programa de imposiçom de códigos culturais por parte de uma elite dominante que, usando os meios de comunicaçom para difundirem as suas ideias, estandardizariam e regulariam institucionalmente uma orde estética harmónica e moral. A finalidade última consistiria no exercício de programas de intervençom e investimento de expertos que, de acordo com critérios científico-legais, estabeleceriam a invalidez de soluçons populares baseadas na autoconstruçom e numa economia que —de maneira inconveniente para o poder— adoita estar fora dos circuitos de dívida financeira e bancária. O feísmo seria, por tanto, uma verdadeira questom de saber-poder. A proposta apontaria cara à tensom existente entre o habitante do rural e o habitante urbano, sendo este último o responsável de pensar e lhe aplicar institucionalmente um discurso moral sobre aquilo que deve ser uma paisagem ideal. Exemplos desta corrente podem ser alguns textos produzidos desde o Departamento de Geografia da USC ou a produçom teórica da Cooperativa de trabalho Ergosfera.

Sem entrarmos a valorar a maior ou menor validez destas achegas teóricas, constatamos que o debate sobre o feísmo está estabelecido a partir de um eixo que transita entre o rejeitamento mais rotundo das suas soluçons até a aceitaçom, revalorizaçom e legitimaçom das suas propostas arquitetónicas. Assim, entram em jogo dialético conceitos de beleza, estética, funcionalidade e economia a combinarem entre si para a produçom de discurso. As posturas abranguem desde a aparente perda de património resultado do devalar do bom gosto e sentido de equilíbrio de uma sociedade em decadência, até posturas a sublinharem o valor funcional de determinadas soluçons arquitetónicas e materiais construtivos. Estas formas, além do estético, suporiam uma mostra de significativa racionalizaçom económica e original engenho popular que, em situaçom de desamparo e esquecimento por parte de administraçons públicas que deixam de subministrar apoio orçamentário para o mantemento patrimonial, priorizam genuínas soluçons funcionalistas nom académicas.

Algumas pessoas pensamos que este debate está a ignorar uma parte fundamental do fenómeno do feísmo, que é a sua própria materialidade. Compreender o ser humano a partir do estudo e análise científica da materialidade associada é fundamental nas definiçons da arqueologia como ciência social. Consideramos que o feísmo, em tanto que é materialidade, pode ser estudado desde a arqueologia e que, baixo coordenadas desta disciplina de conhecimento, é possível subministrar ideias válidas para o debate.

Nós propomos interpretar o feísmo como evidência material das transformaçons capitalistas acontecidas na Galiza durante a segunda metade do s. XX. Assim, pensamos que é útil contemplar este fenómeno desde o marco conceitual do que recentemente se está a definir como trauma da modernidade na Galiza contemporánea.

Andrés Currás.

Um dos aspeitos mais importantes para a arqueologia é conhecer a cronologia das cousas. O feísmo, mália a sua inexistente classificaçom tipológica sistemática, parece principalmente identificado com uma série de construçons arquitetónicas que, de maneira nom exclusiva, corresponde com casas unifamiliares que datam da década de 60 em adiante. A antropologia mostra-nos que a casa é um elemento crucial nas sociedades pré-modernas. Na Galiza, a casa familiar das aldeias significa muito mais do que um contentor, abrangendo também as leiras, o gando, as galinhas, as vinhas e até os próprios corpos. Neste sentido, tem-se reflexionado sobre o carácter animado e vivo da casa tradicional galega, capaz de nascer, medrar, contrair doenças e morrer. Transformando uma casa transforma-se a vida. Isto som características habituais em toda sociedade pré-industrial.

Os estudos sobre a modernidade traumática na Galiza estám pondo em perspetiva comum a série de transformaçons experimentadas pela sociedade galega desde os anos 40 baixo a implantaçom do estado totalitário franquista. A brutal e desproporcionada repressom acontecida no rural, o desenvolvimento do programa hidroeletro-fascista —incluindo o assolagamento de vilas, aldeias, leiras, despraçamento forçoso de habitantes—, a drenagem de Antela, a criaçom de colónias agrícolas ex-novo, a extinçom dos usos comunais do monte e desenvolvimento de política de reforestaçom de pinheiral, constituírom uma paisagem política nova de importante e dolorosa fratura com o passado imediato. Nom menos importante foi a repressom linguística, especialmente intensa contra a povoaçom mais cativa. A emigraçom para o estrangeiro, que já tinha exportado milhons de pessoas desde o s. XIX, foi mesmo incentivada desde o novo regime para favorecer a captaçom de divisas. Este importante movimento de pessoas tivo um alto impacto tanto para quem marchou como para quem ficou.

As primeiras manifestaçons de feísmo arquitetónico estám cronologicamente associadas à última geraçom que emigrou massivamente e que foi voltando a partir dos anos 60 e 70. A casa, o lugar mítico imaginado desde o estrangeiro, passou de ser um elemento de veneraçom identitária a ser alvo das mudanças sócioeconómicas que acompanham o último quarto do s. XX. A maneira em que a transformaçom da casa tivo lugar tem sido aproximado desde a arqueologia contemporânea (por exemplo, na obra o investigador Alfredo González Ruibal) como práticas de iconoclastia memoricida. De maneira progressiva e espalhando-se por imitaçom ao longo do país, a casa tradicional foi quer abandonada para construir uma casa nova ao lado quer destruida para construir uma casa nova acima dela. Uma das principais características das novas construçons foi o uso de materiais completamente alheios à tradiçom construtiva vernácula. O tijolo industrial, o azulejo-baldosa exterior, a carpintaria de alumínio, a pedra de corte industrial, os acabamentos em cimento nu ou o uso de cobertas de amianto estendem-se e estandardizam-se como sinónimos de modernidade e de superaçom das técnicas e materiais tradicionais, carregadas de conotaçons negativas associadas à fame, à pobreza e ao fracasso. Desta maneira, acabando com a materialidade tradicional esquece-se o passado, exorcizando os males da história, e produz-se uma nova memória projetando um futuro definido pelo triunfo. A sociedade rural galega, tradicionalmente igualitária e estruturada baixo liames comunitários mui fortes, tinha associada uma materialidade habitacional que apresentava pouca variabilidade formal. O trauma da modernidade implicou, entre outras, a dissoluçom deste sentido de comunidade e o avance da figura de um novo tipo de casa, moderna e atualizada, que exalta o seu proprietário, masculino, enquanto indivíduo de sucesso planamente inserido na modernidade capitalista. Neste sentido, a redençom do trauma coletivo nom estaria no povo mas no indivíduo.

Consideramos que aproximarmo-nos ao feísmo desde a arqueologia pode enriquecer um debate centrado habitualmente entre o mau gosto, a alta funcionalidade e a legalidade urbanística. Também permite colocar o fenómeno na corrente de estudos sobre o sujeito colonial e o trauma do s. XX. Um desenvolvimento potencial da conjetura aqui exposta pode estar no estudo comparativo de casos, identificando os impactos formais que tivo a chegada da modernidade capitalista noutros lugares que partiam de situaçons similares à galega, mas que puiderom dar outros resultados. A ausência ou presença de feísmo noutros territórios pode guiar-nos para pensarmos nos elementos que acompanharom as transformaçons do s. XX e para compreendermos melhor o nosso passado recente.