As palavras, produto da sociedade, nom som neutras; catalogam a realidade e quando as trocamos cambiamos a nossa classificaçom do mundo. Alberte Pagán analisa a presença de estrangeirismos nos nossos usos linguísticos cotidianos através do conceito de «microcolonialismos».
A primeira longa-metrage de Wim Wenders, feita na Alemanha com diálogos em alemám, tem todavia um título inglês, Summer in the City, e está «dedicated to the Kinks». O próprio Wenders, através do coprotagonista de Ao correr do tempo (Im Lauf der Zeit), reconhece que «os americanos nos colonizárom o subconsciente». A música rock anglo-saxá é, neste caso, a porta de entrada da conquista cultural: a fabricaçom do gosto como arma sociopolítica.
Oliver Laxe deixa-se levar por esta ocupaçom do gosto quando ilustra umha cena de O que arde com umha cançom de Leonard Cohen. Pola contra, e desde um posicionamento conscientemente político, a cineasta afro-americana Já’Tovia Gary acompanha An Ecstatic Experience, na que a ativista Ruby Dee interpreta à escrava Fannie Moore, com a música de Alice Coltrane, mulher e afro-americana. Acudir à música de, por exemplo, um home branco seria cair nesse complexo de auto-inferiorizaçom que a película denuncia; seria como aceitar umha história do feminismo escrita por um home.
As palavras, produto da sociedade, nom som neutras; catalogam a realidade e quando as trocamos cambiamos a nossa classificaçom do mundo. O nome de Christchurch («Igreja de Cristo»), cidade de Aotearoa em cujas mesquitas um supremacista branco assassinou 50 persoas muçulmanas em 2019, inconsciente e inevitavelmente recria um consenso cristao e islamófobo que coadjuva na escolha da localidade como objetivo. O poder está em todas partes, tamém nos nomes. A escrava Fannie adquiriu o apelido do seu amo Jim Moore: a mulher como propriedade. Malcolm mudou o cognome escravista Little pola incógnita X: o sobrenome do amo branco impunha-se para nom deixar rasto das raízes africanas. Ainda a dia de hoje, inexplicavelmente, nas sociedades anglo-saxás a mulher quando casa perde por defeito o apelido (que de todos jeitos herda do pai e nom da mai) e passa a adoptar, desde umha atitude submissa, o do seu marido (é o caso da própria Alice Coltrane).
A escolha dum nome galego para umha criança é, numha Galiza atravessada pola lógica da colonialidade, um ato de afirmaçom cultural. Porém, o Juan que em tempos falava galego voltou-se um Joám castelhanizado. Mas essa é outra história. O significativo é que entre nós começam a abundar os Jonathans: indício da imparável colonizaçom cultural anglo-saxá. Num país pequeno e frágil como Islándia conservam e cuidam a língua como património nacional. Em 1991 estabeleceu-se o Mannanafnanefnd, comité que determina que nomes se podem utilizar em funçom da sua «islandesidade», é dizer, da sua adaptabilidade ao alfabeto e às declinaçons gramaticais islandesas: a língua como parque natural no que conservar as espécies autóctones. Nom deveria de surpreender que num país (nom anglófono) no que proliferam os Jonathans tenhamos o território ocupado por eucaliptos. A presença desta árvore foránea, em si neutra e mesmo positiva, agacha a desapariçom de soutos e fragas autóctones, de igual modo que se imponhem os Moore e Little para erradicar os apelidos originários africanos.
Aceitar umha denominaçom estrangeira é assumir a sua conceiçom do mundo. Robinson Crusoe batiza o seu acompanhante nativo como Sexta-feira e com esse nomeamento fai-se dono e senhor del. Crusoe nom aprende a língua de Sexta-feira: é este quem tem de adquirir a língua inglesa para comunicar-se com Crusoe; mas o primeiro que aprende é a palavra «Amo» («dei-lhe a entender que esse seria o meu nome», di cinicamente o narrador) e com ela o seu status social. Esta apropriaçom da persoa através da linguage vem inevitavelmente seguida do seu doutrinamento cristao. «Siempre la lengua fue compañera del imperio», afirmava Nebrija. As dissidências lingüísticas som dissidências políticas.
Entanto identificamos os micromachismos e luitamos contra eles, intelectual e lingüisticamente, nom somos conscientes dos «microcolonialismos» nos que incorremos cada vez que utilizamos um anglicismo. Nesta época de vertiginosos câmbios nas falas e espalhamento de linguages inclusivas, que ajudam a conformar (identificar e visibilizar) novas realidades sociais, seguimos porém a abusar de anglicismos perfeitamente prescindíveis (nengum matiz ganhamos com chamar-lhe bullying ao acosso, stand a um posto, low cost ao baixo custo e container a um contentor: só ajudamos a um progressivo processo de substituiçom). É impossível ler umha revista especializada sem tropeçarmos com umha dúzia de irritantes estrangeirismos por página, que indicam, por umha banda, o afám de demostrar a cultura anglófona de quem escreve (que navega entre certo elitismo cultural e um aquel de pedantaria) e, por outra, umha preguiça intelectual, tingida de submissom cultural, que impede a busca de equivalentes na própria língua. Os meios de comunicaçom públicos som outra via de introduçom dos anglicismos. Semelha existir um intento expresso de promove-los quando no telejornal nos falam do acosso escolar para a continuaçom afirmar sem rubor que esse conceito «se denomina bullying»: e assi se impom interessadamente um termo que nom é resultado dumha assimilaçom social natural nem é necessário nomeamento dum produto inexistente na nossa língua. A expressom «denomina-se assi», sem engadir «em certo idioma» ou «internacionalmente», é significativa, em quanto aceita o inglês como língua neutra nom conotativa: o nosso subconsciente segue a estar colonizado.
Os anglicismos permeam todos os âmbitos da sociedade, desde o uso do título em inglês dumha película tailandesa, ponhamos por caso, até a reproduçom de siglas em inglês para denominar organizaçons nom inglesas, passando polo feito de rebatizar o histórico Festival de Benidorm como Benidorm Fest. No primeiro caso o título «internacional», que, com umha funçom transitiva, deveria servir de ponte entre o título original e a língua receptora, simples facilitador da traduçom à língua de destino e veículo para a compreensom global, adquire umha funçom intransitiva, volvendo-se destino em si. A colonizaçom do subconsciente é tal que num recente festival galego transformárom o título da película Memoria (assi consta nos créditos), da compostelá Nerea Barros, em Memory. Em quanto às siglas, «segundo as siglas em inglês» é sempiterna frase da imprensa diária: chamar-lhe NIB ao Banco Nórdico de Investimento é como converter a URSS em USSR «segundo as siglas em inglês». E polo que respeita ao último Benidorm Fest, é significativo que algumhas vozes mostrassem certo mal-estar pola possibilidade de que umha cançom em galego representasse Espanha em Eurovisom (Francisco Andrés Gallardo acusa as Tanxugueiras de separatistas no Diario de Sevilla, 2-02-2022), e porém aceitassem como algo natural, neutro e nom conotativo a cançom finalmente ganhadora, escrita no Spanglish de Miami.

Quando um rebelde grupo de rock canta em inglês (a anglofilia como pseudorrebeldia) no fundo o que busca é o reconhecimento da metrópole: toda a sua insubmissom esvaece-se no afám de comprazer o amo e de amoldar-se aos critérios conformados polo poder. A indústria cultural anglo-saxá decreta gostos e portanto opinions, é dizer, políticas. Temos que descolonizar o gosto e o pensamento mas, como afirmava Marcus Garvey e cantava Bob Marley, o escravismo mental (que por estas terras adquire a denominaçom de auto-ódio) é o mais difícil de derrotar porque «ninguém além de nós próprios pode libertar a nossa mente». O escravismo mental é tanto conseqüência como causa do escravismo do corpo. A adopçom do anglicismo é sintoma dumha dependência da cultura anglo-saxá: escoitamos a sua música, vemos o seu cinema, comemos a sua comida, bebemos os seus refrescos e celebramos as suas festas. Este desfrute e imitaçom da cultura do poder tem consequências, além de económicas, políticas: contribui à elaboraçom do consentimento público para a continuidade do assovalhamento. Se o povo colonizado nom é dono da sua terra, a persoa lingüisticamente colonizada nom é dona das suas ideas nem dos seus sonhos. A descolonizaçom do pensamento passa pola língua como ferramenta libertadora: temos que ser quem de descrever o mundo sem recorrermos à língua do poder.
Dirá-se-nos, como fai Miguel-Anxo Murado em «En defensa del extranjerismo» (La Voz de Galicia, 28-05-2016), que eram os regimes totalitários, os Francos e os Mussolinis, os que legislavam contra os estrangeirismos. Dirá-se-nos que é bom contaminar-se, que os estrangeirismos enriquecem a língua e mesmo que é inútil luitar contra eles. E nom podemos estar mais de acordo: favorecemos o trânsito de persoas e vocábulos e sonhamos com umha língua inçada de empréstimos do suaíli, do mapudungun, do zulu, do quéchua, do cherokee, do wolof, do vietnamita ou do cazaque. Outra cousa é fomentar a invassom de territórios, geográficos ou língüísticos; nom podemos aceitar a ocupaçom de Palestina (umha nova família judia em Jerusalém Leste significa umha família palestina menos) nem a Marcha Verde sobre o Saara Ocidental (que cámbia as maiorias e portanto as políticas), de igual jeito que rejeitamos a forçosa introduçom dumha caste concreta de estrangeirismo invasivo: o anglicismo, a língua do poder, a expressom do capital. Sabemos que nom é doado luitar contra os anglicismos. Nem as brincadeiras mais cínicas e corrosivas, que de quando em vez salpicam os nossos jornais, som quem de fazer mossa na esplendorosa generosidade do idioma inglês: as línguas seguem as suas próprias dinâmicas. Mas se se pode luitar contra o machismo usando umha linguage inclusiva (a língua é umha das ferramentas mais úteis, porque cámbia as consciências e as percepçons da realidade), por que aceitar a derrota antes da batalha no eido do colonialismo cultural?
«Cuando dos cinéfilos hablan de spoilers, making-of o travelling no están siendo víctimas del colonialismo cultural, sino que se limitan a usar una jerga especializada que les permite entenderse con precisión y rapidez», justifica Murado. Mas quando a gíria «especializada» invade página após página das revistas o público leitor nom especializado vai ter que acudir ao dicionário mais dumha vez para entender os argumentos, invalidando essa suposta «precisom e rapidez». E nom sempre os dicionários ajudam, porque ao igual que o escravo copia as vestimentas do amo para ascender na escala social sem conseguir mais que umha burda e ridícula caricatura, com demasiada freqüência nos apropriamos de termos falsos e usos erróneos. O making-of que menciona Murado transcreve-se em tantos créditos de películas como «making off»; e a «voz em off» que tanto abunda nas críticas cinematográficas mutou nos últimos anos para «voz over»; de igual jeito que o velho «footing», após décadas de uso, se transformou por um estranho consenso em «running» (quando o vocábulo inglês é jogging).
Murado insiste: «Si abundan los términos extranjeros en determinados ámbitos, de hecho, es porque cumplen su función mejor que sus equivalentes españoles». Mas a continuaçom se contradi quando elabora: «No es porque expresen mejor una idea –todos los idiomas pueden expresarlo todo– sino porque buscarles alternativas requeriría recrear penosamente un consenso que ya existe para el término original». Se todos os idiomas podem expressá-lo tudo, os anglicismos nom tenhem porque cumprir a sua funçom nem melhor nem pior. E, como acabamos de ver com os exemplos de «footing» e «voz em off», o «consenso» tam «penosamente» criado resulta mui singelo de mudar, sempre que seja dum anglicismo para outro. Em definitiva o que vem a propor Murado é que, num ato de auto-inferiorizaçom lingüística, desistamos de «buscar alternativas»: submissom cultural e nugalha intelectual. Chamamos Amo a Crusoe pensando que esse é o seu nome e sem nos darmos conta nos situamos na posiçom do escravo.
Desde a Rede Galega de Estudos Queer acodem a esse «consenso» tam «penosamente» elaborado para justificarem o termo, mas é um consenso trabalhado nos estudos anglo-saxons que nós, desde a periferia, simplesmente ratificamos. Houvo intentos de adaptaçom («teoria marica», «estudos transmaricabolho», «maribolheiras precárias») que nom calhárom. Rafael M. Mérida («De qué hablamos cuando hablamos de queer», El País, 1-07-2022) mostra-se «surpreendido» de que se acabasse impondo-se «queer» («que sea un anglicismo no lo favorece»), devido a umha preguiça intelectual que elimina da equaçom a conversom do insulto em bandeira («queer» volve-se inócuo termo no nosso idioma). E pergunto: de nom existir o inglês, nom seríamos quem de identificar o campo e encontrar umha terminologia para o que agora se denomina «estudos queer/cuir»? Cúmplices da nossa própria dominaçom, ou «agradecidamente oprimidos» na frase de Joyce, aceitamos com entusiasmo a «violência simbólica» (na terminologia de Bourdieu) do anglicismo e escrevemos os nossos sonhos numha língua alhea.
Entretanto, na Islándia, o Departamento de Planificaçom Lingüística fai visível o invisível e busca na própria língua jeitos de denominar as novas tecnologias, e com as palavras «tala» (número) e «völva» (vidente) formam o vocábulo para «computador». E na Galiza, por umha vez, damos exemplo de criatividade, tanto a leste como a sul, quando escrevemos «chios» em vez de tweets/tuites.