O uso do meme como género discursivo permite a construção de paródias e collages sobre a galeguidade. Daniel Amarelo analisa neste artigo o potencial deste género digital para uma crítica dos sentidos normativos impostos polo Autonomismo fraguista.
Não, nenhum fantasma percorre a Galiza instagrammer. Quem conhecer a atividade digital em redes sociais como Twitter ou Instagram, saberá de termos – como Galituiter ou Galesfera – que se têm popularizado nos últimos tempos para referir-se a formas particulares em que internautas na Galiza abordam problemas locais com meios globais. Particularmente, e desde o verão de 2020, foram criadas dezenas de contas no Instagram cujo nome começa com “Concelho de …” (alguns exemplos salientáveis, entre outros, são @concellodecatoira, @concellodeboiro ou @concello.lousame). Estas contas fake constituem um movimento social digital com implicações político-culturais de primeira ordem para os debates contemporâneos sobre a Galiza, para as suas representações e, mais importante, para as suas emancipações – em plural!
Os concelhos, como se conhece esta multiplicidade de contas, definem-se polo seu uso de memes com uma intenção crítica face a políticos, agentes culturais, tendências sociolinguísticas e temas de atualidade da/na Galiza, não sem incluir a autocrítica do próprio movimento. Ocupam um espaço mediático e social onde não chegam esses mesmos atores, pois a política local (e mesmo autonómica ou estatal), enquanto tenta representar e erigir-se como a voz da comunidade, costuma estar fora do Instagram e, portanto, de certas comunidades de prática digitais que a conformam. Quando tal política está, sim, presente neste tipo de meios, a forma e o conteúdo daquilo que é postado não responde aos códigos de leitura da geração Z, provocando, de todos modos, a sátira.
Aliás, o uso do meme como género discursivo permite a construção de paródias, narrativas humorísticas e collages sobre a galeguidade que, questionando-a, fazem com que as suas potencialidades se alarguem e diversifiquem além dos sentidos normativos impostos polo Autonomismo fraguista. Os memes são artefatos culturais que, com uma forte base visual, articulam diferentes elementos imagéticos e textuais que, no fim, resultam numa mensagem geralmente humorística. Estas ferramentas veiculam elementos recicláveis e descontextualizáveis que expandem os (sem)sentidos da política, da língua e da cultura galegas de hoje. Vimo-lo no caso de imagens como o «Boiro» (uma adaptação de uma personagem do videojogo Spare que tomou longa vida na galesfera, como explicam os seus próprios protagonistas) e de expressões como «Vai trabalhar» ou «Tes a leira feita uma porcalhada», todas elas recursos essenciais e onipresentes na memesfera galega.
A cultura da participação típica da globalização digital fez com que se estendesse este tipo de discursos virais, onde o sem-sentido passa a funcionar ao serviço da ampliação da imaginação política. Os memes escapam à censura e ao controlo dos meios de comunicação mainstream e possibilitam respostas rápidas por parte da cidadania a respeito daquelas controvérsias que surgem diariamente numa dada vila ou país. O seu uso por parte dos concelhos liga-se à gente jovem como população subalterna fruto do neocolonialismo espanhol: uma representação cultural historicamente de corte gerontocrático, um desemprego juvenil que roça o 33%, uma emigração de mais de 50.000 moçes na última década e, claro, um envelhecimento progressivo da população em que um de cada quatro cidadãos tem mais de 65 anos. Enquanto o capital económico, social ou simbólico marca o acesso à esfera pública tradicional, estas contra-esferas públicas requerem uma certa literacia digital característica da gente nova no tocante a compreender, decodificar, criar e compartilhar memes. Es jovens, embora dispersades polo território, carentes de futuro, marcades pola precaridade financeira ou até emigrantes, encontram folgos e junção nesta multidão sem cabeças visíveis que se apropria da instituição política local e da sua autoridade. Algumas destas contas, até, emulam os escudos e brasões oficiais das câmaras municipais usando a aplicação Paint. Outras recusam o nome «Concelho de…» para levar a brincadeira mais longe e adoptam, portanto, lembranças soviéticas – como @ferrolgrado – ou inventam concelhos com base em séries e outros produtos culturais ligados ao mundo fictício e digital – como @concellodelyoko. Por último, temos algumas que sofreram as ameaças de denúncia e pressão judicial de entornos próximos ao Partido Popular, como aconteceu com @concellodelousame e como explica @concellodecatoira na sua cronologia deste movimento. Deste modo, a memesfera funciona como um conjunto de práticas vernáculas em que a crítica sociopolítica e cultural escapa dos marcos nacionais impostos quer polo Estado espanhol quer pola Galiza autonómica: cria-se, assim, um contrapúblico nas margens da esfera pública líquida do século XXI.
Nancy Fraser, no seu artigo clássico «Rethinking the public sphere: A Contribution to the Critique of Actually Existing Democracy» (1990), criticou a conceição Habermasiana do que é a esfera pública e definiu os contrapúblicos como estádios paralelos aos hegemónicos onde grupos subordinados podem inventar e socializar discursos alternativos, discursos em que os seus interesses, identidades e necessidades tomam forma e constroem interpretações combativas. Tomemos como exemplos os seguintes memes, que julgo representativos do movimento como um todo. Em primeiro lugar, um de @concellodelyoko e, em segundo lugar, um compartilhado de @memolos_xacobeos e @concellodecatoira. Ambos memes colocam desafios para os sentidos normativos e institucionais da comunidade, um vocábulo que vertebra as discussões sobre a Galiza na atualidade. O seu nome como entidade política («Comunidade Autónoma») e a conceitualização do galego como a «língua própria» (da comunidade) tornam o comunitário no principal campo de batalha político-cultural.

Estes exemplos questionam os relatos hegemónicos sobre a normalização da Galiza como problema político e cultural no atual regime do Reino de Espanha: no primeiro caso, mediante a caricatura do programa Dígocho eu, que visa a correção linguística segundo um modelo oficialista muito próximo do espanhol, e o facto de ter sido premiado polo próprio governo do qual depende a televisão pública onde é emitido; no segundo, mediante a reentextualização de várias camadas discursivas que, juntando um tweet de um conhecido artista de música tradicional com a manipulação digital dos muros da Faculdade de Filologia da USC, criam uma piada sobre o que significam a resistência e o ativismo na Galiza contemporânea. Nesse sentido, José del Valle afirmou muito cedo (já no ano 2000, no seu artigo «Monoglossic policies for a heteroglossic culture: Misinterpreted multilingualism in modern Galicia») a necessidade de repensarmos a política linguística galega, à qual poderíamos também somar a gestão cultural. Segundo ele mostra, a cultura linguística da Galiza é heteroglóssica, ao tempo que as políticas que se têm implementado para a domesticar caracterizam-se por serem especialmente monoglóssicas. O multilinguismo galego, constantemente malinterpretado, vertebra a comunidade por meio da diversidade, sendo que es galegues usam múltiplas normas de comportamento linguístico, múltiplas variedades linguísticas e múltiplas orientações ortográficas como fonte da sua identidade étnica. A memesfera galega dá boa conta disto, pois muitas vezes o galego normativo passa a ser a variedade caricaturizada e outros códigos como o castelhano, galegos locais, diferentes estilos de galego reintegracionista ou até o inglês funcionam como códigos não marcados nas interações no Instagram.
As críticas de Del Valle baseiam-se na obra de Mikhail Bakhtin, um dos maiores pensadores do século XX nas áreas da linguística e da literatura. Bakhtin falava do dialogismo da comunicação em sociedade: frente à língua unitária, conjunto de processos centrípetos marcados pola unificação e centralização discursivas (imposição de formas de fala, língua estândar, formalismos, fascismo), defendia as forças centrífugas como conjunto de códigos e vozes sócio-ideológicas que desafiam aquela centralidade e sua normativização. A heteroglossia resultante provoca que formas «neutras» não possam sequer existir, pois todos os conceitos e expressões estão intrinsecamente marcadas polos seus usos e intenções anteriores em comunidade, além do indivíduo. Os memes, logo, funcionam como forças centrífugas a respeito da cultura da normalización e, como géneros discursivos heterogéneos, possibilitam abordar os conflitos galegos atuais de formas não unívocas, mas heteroglóssicas. As suas críticas ao nacionalismo espanhol (mas também ao nacionalismo galego mais normativo), a sua caricatura de partidos e acontecimentos políticos de todas as siglas, a sua multiplicação em número de contas (com base, especialmente, no conflito entre elas acerca do que é um «bom meme»), a sua auto-ironização como movimento digital efêmero e inconsistente e a sua insistência em interrogar a monoglossia sob a qual nos narramos como comunidade, tornam os concelhos num chamado de atenção para uma cultura galega que queira ter futuro.
En definitiva, este movimento abre as portas para a heteroglossia pós-nacional sem a qual é impossível somar a um projeto emancipatório que, por um lado, trabalhe com as distintas identidades como entes dinâmicos e mutantes (incluindo uma suposta e fixa «identidade galega») e, por outro, combata os desafios neocoloniais que as instituições do atual regime jurídico-político espanhol nos colocam. Mas sempre, sempre, com humor.